quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Voando para o futuro

Logo pós a queda do vôo 1907 e próximo das eleições de 2006. Do fundo do baú.

Voando para o futuro

A mídia, ultimamente, tem alternado suas reportagens entre o acidente do vôo 1907 e a sucessão presidencial. Já somos semiperitos em métodos de abordagem estatística, margem de erro, pesquisas eleitorais, aerodinâmica de boeings, funcionamento de transponders, processos de identificação médico-legal. Dividimos nossa atenção entre as alianças partidárias, o jogo personalista do poder e a tragédia que desestruturou algumas famílias. Contudo, o silêncio e a tristeza são suficientes para exprimir o sentimento da nação diante de tamanho desastre aéreo.

Falo hoje sobre disputa presidencial. Falo a nosso respeito. É no mínimo interessante como somos agressivos (a começar deste que vos escreve) diante dos escândalos políticos, da dilapidação moral e da insustentável coerência de certos governantes. Alguém já percebeu culpa sempre é de Deus ou dos políticos? O crédito pelos escassos bons resultados sempre é do povo, que escolheu acertadamente os dirigentes da nação, mas a culpa é única e exclusiva do chefe. Parece mais uma partida de futebol. Se o time ganha, foi o coletivo que conquistou a vitória; se surge a derrota, enforquem o técnico.

Este tipo de comportamento parte do mais simples agricultor lá de Roraima ao mais pomposo candidato do sul. Somos implacáveis nas adjetivações, nas investidas contra aqueles que elegemos. Opa! Eis aí a explicação para o lamaçal ético que enfrentamos. É isso! Os mensaleiros, sanguessugas e outras categorias ainda não reveladas são a reprodução do caráter e da maturidade dos nativos desta terra onde tudo se pode.

Desviar verbas públicas, mentir, ser demagogo, comprar de votos, adotar uma postura clientelista, prostituir os princípios, bons costumes ideais possuem o mesmo princípio de “colar” numa prova, subornar o guarda, dar um “jeitinho” brasileiro, subtrair uns trocados da carteira dos pais para comprar algo desejado e falar belas palavras numa entrevista para um emprego (escondendo quem realmente somos). Somos tão corruptos, mentirosos, desleais e criminosos quanto eles, diferindo somente na intensidade de comportamento. O instinto de burlar, fazer da maneira errada, maquiar, atender sempre aos interesses mais individuais só mudam de esfera, aliás, adquirem poder, o que os torna mais devastadores.

Mas, parece que não queremos ver. É melhor crucificar aquele ser distante, pois, quiçá, desta maneira, nos escondamos de nossas próprias fraquezas. Quem sabe até reconheçamos nossa parcela de culpa, mas o comodismo e a facilidade em acompanhar o coro massificado de condenação dos poderosos nos bloqueiam. Entre bater nos outros e enfrentar a realidade dos instintos pessoais, não há dúvida seremos algozes profissionais dos primeiros.

Outro fator relevante. Quais as razões que nos levam a escolher candidato A ou B? Beleza? Um discurso empolgante? A roupa ou o modo como se penteia? O emprego que conseguiu para o irmão do cunhado do síndico do prédio da vizinha? Ou ainda quem sabe, em um ato de compaixão e admiração autodestrutiva, pomos o programa “Primeiro emprego” em prática e elegemos um sujeito que nunca foi nem presidente de sala de aula? A verdade é clara e simples: a seriedade dos motivos que nos impulsionam a escolher fulano ou beltrano será a mesma que os eleitos terão para conosco.

Temos duas opções muito claras para o constatado problema: ou mudamos primeiro nós mesmos, reconhecendo nossa má índole e reflexo de caráter dos que aí estão ou continuamos sendo governados pelo típico brasileiro e mantemos a nação nesse curso desenfreado com o transponder intelectual desligado, rumo à selva da imoralidade. Você é o piloto!

LUCENA FILHO

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Salvem o planeta! Minhocas e árvores primeiro!!!

Há três espécies de pessoas que me tentam a paciência: religioso alienado, ambientalista chato e falido metido a rico. Para a segunda categoria respondo com esse vídeo de George Carlin, um dos pioneiros no stand-up comedy com crítica social nos EUA e falecido ano passado aos 71 anos. Não concordo com toda as idéias de Carlin, especialmente quanto ao ateísmo violento dele, mas o cara era muito bom.

Carlin inspirou toda uma geração de novos humoristas, em especial Lewis Black. Chegou a ser preso pelo conteúdo da seu mais famoso texto "Sete Palavras que não se podem dizer em Televisão", o qual foi a palco na década de 70 ou 80, salvo engano.

Enfim... Carlin sabia zombar do American Way of life de maneira ácida e divertida.

Boa semana.

LUCENA FILHO

domingo, 25 de janeiro de 2009

Aluno aplicado

Se o rapaz, digo vovô, não for transferido para o Brasil ele vai morrer solteiro.

LUCENA FILHO

OBS: Para ver o link, clique no título "Aluno aplicado"

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os normais

Hoje estava revendo meus arquivos e tive boas lembranças. Tudo que você gosta de fazer hoje talvez tenha descoberto por uma circunstância acidental. Como é público sou admirador das palavras e o primeiro texto que escrevi foi no ano de 2005, chamado de "Os normais". O escrito tomou proporções inesperadas já que foi publicado num jornal de grande circulação aqui no estado e reverberou no periódico por três dias consecutivos, bem como chegou em terras portuguesas e canadenses.

Em homenagem ao sumido companheiro Rafhael Levino e à época em que tudo me indignava:

Os normais

Quarta-feira, 05 de janeiro de 2005. Como aluno do curso de Direito da UFRN, por ironia do destino ou não (e os senhores irão entender o motivo), passei a manhã assistindo aulas de Direito Penal, até que, por volta das 11:30h, juntamente com um colega, dirigi-me ao Natal Shopping com a intenção de olhar um aparelho celular. Para mim, era mais um dia como outro qualquer, não via nada fora da normalidade-guardem esta palavra. Estávamos nós sentados, comentando sobre o verão escaldante de nossa cidade, quando vimos uma cena intrigante capaz de macular a imagem do Natal-RN. Tratava-se de um grupo de quatro jovens “gringos” (estilo escandinavos) na companhia de uma jovem e uma adolescente brasileira, aparentando esta última no máximo 13 anos. Até aí tudo bem. O grupo dirigiu-se até o McDonalds, enquanto observávamos atentamente cada movimento.

Parecia um quadro, em tempo real, retratante da situação do Rio Grande do Norte frente ao abuso infantil. Fiquei pasmo. Enquanto esperavam suas refeições, um dos rapazes agarrou a rapariga (escolha cada um a melhor semântica) e a beijou ostensivamente, como se estivesse atacando carne fresca. Ressalte-se aqui os trajes utilizados pela garota, que possuíam no máximo 40 cm, e refletiam sua preparação para o abate. Aquela cena nos indignou, como se o sentimento de justiça de três anos de curso universitário acabasse de brotar com todo furor. Percebíamos no olhar das pessoas, muito bem acomodadas na praça de alimentação, a mesma revolta, mas ao mesmo tempo, todos tentavam ignorar a cena. Cerca de dois meses atrás, tínhamos participado de um Encontro Estadual de Juízes e Promotores, o qual versava unicamente sobre o Direito da Criança e do Adolescente. Naquela ocasião fomos desafiados a trabalhar para reverter o quadro de exploração sexual no nosso Estado. Estávamos diante da situação propícia para fazermos uma denúncia.

Não bastasse o beijo libidinoso, sem nenhum escrúpulo, a adolescente começou a fumar e compartilhou do cigarro com um dos turistas, que por sua vez não entendia uma só palavra da garota, tentando realizar a comunicação através de gestos. Essa foi a gota d’água. Ligamos primeiramente para a Polícia Militar e esta nos encaminhou para um outro setor de prefixo 0800, totalmente desprovido de atendentes, o qual resumia-se em emitir uma mensagem gravada contendo direitos fundamentais elencados no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Posteriormente, discamos para o COMDICA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente do Natal) e fomos atendidos de maneira solícita, porém ineficaz por um de seus funcionários. Daí, fomos encaminhados para o SOS CRIANÇA e recebemos a notícia que nada poderia ser feito, pois aquela era apenas uma situação de risco, só podendo haver uma medida mais “dura” caso houvesse flagrante delito no crime de exploração sexual. Passamos em média 30 minutos discando de um número para outro, sendo remetidos a delegacias fantasmas e programas de combate inacessíveis.

Enquanto procurávamos a autoridade competente para a denúncia, confirmamos de fato ser uma (pré) adolescente, pois esta divertia-se no centro de jogos eletrônicos do Natal Shopping, com seus bilhetes pagos pelos rapazes, demonstrando um comportamento pueril e concomitantemente histérico, enquanto os rapazotes as observavam com olhos dominados pela luxúria. Em determinado momento, uma reação de impaciência tomou conta de um dos moços, pois percebeu nossa apreensão. Dentro de instantes, foram todos até uma farmácia (detalhe: nenhum deles parecia doente) e compraram algo e saíram em direção à saída do shopping.

Todas as tentativas de denúncia foram frustradas. Em uma das ligações alguém nos disse: “isso é normal”. Normal? Será que é mesmo? Se as autoridades acharem tal situação normal, vejo uma clara desfocalização do ideal de justiça, um desinteresse do aparato estatal em combater a criminalidade, defendendo um bem jurídico tão precioso como nossas crianças e adolescentes. Quando recebi tal resposta em face de um apelo de alguém querendo contribuir com a diminuição de índices tão elevados na prostituição infantil, tive a sensação de remar contra a maré, de enfrentar o leviatã do comodismo, da vista grossa, da teoria jurídica. Perdoem-me os jurisconsultos, mas talvez aquela situação, em termos práticos, tenha me ensinado muito mais que as três horas de aula sobre Direito Penal. A todo direito cabe uma obrigação correspondente e, para assegurar o meu direito a viver em uma cidade com menos problemas sociais, tinha a obrigação de comunicar o fato à autoridade competente.

Além de funcionar como uma ameaça para as crianças e adolescentes, o sexo-turismo, ao lado da violência, é fator desfavorável para a economia norte-riograndense, pois afugenta os turistas de boa índole, gerando um efeito cascata de extinção de empregos, investimentos e renda. Para sanar tal mazela, é urgente uma reformulação das regras de entrada de estrangeiros no Brasil cominada com políticas de inclusão social sérias e de desmantelamento de redes de prostituição. Caso contrário o sodomismo funcionará como uma onda devastadora de valores (sociais e econômicos) e atrairá, cada vez mais para o Rio Grande do Norte, o que há de mais pútrido em termos de exploração sexual.

Não quero acreditar, mas parece até que alguém ganha algo com a manutenção de fatos desta natureza. Na verdade, desta só foi um caso, e absolutamente não foi o primeiro nem o último, e como muitos outros, não haviam provas incriminadoras de um flagrante delito, mas todos os indícios estavam ali, crus e desnudos diante dos nossos olhos e com um pouco mais de trabalho de investigação, certamente, seriam duas vítimas a menos de um sistema de prostituição infantil reinante em nossa cidade. Contudo, além de contar com um aparato capenga, não é de característica do brasileiro médio cortar o mal pela raiz, princípio refletido nas autoridades, as quais por sua vez preferem a consumação do crime, para tomarem alguma providência, ao sistema preventivo. Somente nos resta duas opções: ou somos anormais ou o conceito de normalidade está mais turvo do que nunca.

LUCENA FILHO

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Palavreado

Palavreado

Parei, pensei, proseei, prossegui...
Parar para pensar pressupõe petulância
Para poucas pessoas. Pouquíssimas.

Percebi-me principiologicamente preso Pedindo por piedade
Piedade? Positivo.
Piedade, paz, paixão, pureza..

Padecente ponderei: Pedir para..?
Padres, pastores, prostitutas, pobres, políticos,

Pigmeus, pacifistas, paleontólgos, povos, populações, pessoas.
“Prudência”, protestou Psichê.

Prostrei-me, parti-me, pari promessas
Promovi profundas propagandas psicológicas
Para possuir? Pretexto puro!
Preferia palavras. Polissílabas, proparoxítonas, plurais, permeadas pelo poder poético.

Precisava proliferá-las!
Procurei portas, portões, pontos, praças...
Poucos predicados pessoais?
Pontuei possibilidades
Programei passeatas, públicos, pandeguices
Posterguei, preferi planejar. Paciência!

Humberto Lucena

domingo, 18 de janeiro de 2009

Boa semana

Porque até na igreja tem presepada, marmota, pantim, mugangagem, etc... Boa semana a todos com muita endorfina

sábado, 17 de janeiro de 2009

Setenta dias

Texto do ano de 2007, mas está valendo...

Setenta dias. Isso mesmo. Hoje é aniversário de dois meses e dez dias, ou, caso prefiram, mil e seiscentas horas sem pensar ortograficamente. E não foi por falta de assunto. De lá para cá famosos morreram, a CPMF tomou os espaços da imprensa, o timão foi rebaixado, me apaixonei e desapaixonei umas cinqüenta vezes pelo Fiat Punto, dentre outros temas. Porém, a produção foi nula durante esse período.

Hoje parei para investigar o motivo de tanto ócio e desmotivação criativa e, para meu desespero, cheguei à óbvia conclusão que em setenta dias nada de interessante aconteceu na minha vida. O motivo da agonia é plausível. Na medida em que nesse período de tempo nada de interessante (leia-se arrebatador) se sucedeu na minha história, percebi que é tempo suficiente para se fazer muita coisa. De se preparar para um concurso público até plantar uma árvore e o início do florescimento há um leque de opções de atividades e fatos capazes de dar ânimo a vida de qualquer ser vivente.

Pois bem. A cada dia passado esperava um lampejo de inspiração, criatividade ou acontecimento digno de comento, mas “nem água”. E, para quem tem planos de um dia formar uma coletânea de texto, tal letargia não é lá um bom sinal. A impressão é de que estive ligado no piloto automático, reproduzindo ações sucessivamente e todo o universo quedava-se inerte. Provavelmente uma espécie de coma intelectual. Pessoas vieram e se foram, contas surgiram, pensamentos se dissiparam, conversas aconteceram e idéias foram trocadas. Tudo sem muita ação e reação. Próprio de andróides. Mas de uns minutos pra cá, curiosamente após ouvir uma meia dúzia de canções clássicas bálticas, pus-me a dedicar alguns neurônios às circunstâncias que nos mantêm em movimento.

Certamente, quem tem a obrigação de escrever todos os dias não espera que grandes toques de ânimo venham às suas almas. Imagino que buscam, por talento ou necessidade, burilar o já existente à disposição. E é isso a razão primária de muitos serem exitosos em tudo que fazem. Os grandes empreendedores não esperam setenta dias por uma boa idéia, projeto, luz. Eles simplesmente fazerm surgir o grande a partir do disponível.

Vejo pessoas serem tragadas pela depressão todos os dias porque esperam que algo fantástico abale os muros de rotinas emocionalmente avassaladoras. A única ressalva é que o fantástico só é exibido aos domingos... mas ele passa a semana sendo preparado! E aí está a chave para uma vida menos ordinária: fazer o extraordinário acontecer gradual e sucessivamente todos os dias. Aguardar que boas situações ocorram de forma intensa e maquiavélica, sem ao menos preparar o caminho para seu auge é apenas sobreviver a cada dia. Ninguém faz um download com conexão banda larga de vitórias; a lógica vital impõe, em regra, uma processamento discado em horário de pico para as realizações desejadas.

(Sobre)Viver esperando que o meteorito do ânimo, ineditismo, força e surpresa se choque com os estilos enrustidos de vida intelectualmente sedentários é usufruir uma sensação de setentas dias vazios a cada vinte e quatro horas. Atravessar o mar da vida sem esperar nada de ninguém em tempo algum, sem, contudo, parar de se debruçar sobre os planos desejados. No momento exato e, quiçá, antes dos citados setenta, tudo acontece!

LUCENA FILHO

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Se me explico...

Um dos grandes fenômenos da comunicação, sem dúvida, é a interpretação. Milhares de pessoas têm esbarrado nesse gigante quase que invencível em determinadas ocasiões, quais sejam: provas de concurso, textos em geral, símbolos, sinais e até mesmo na linguagem oral. Tal deficiência na arte de interpretar é fruto da história educacional brasileira, que sem dúvida é totalmente desnutrida, mas deixemos a análise da educação para os pedagogos. Entretanto, a reflexão sobre interpretação aqui iniciada envereda-se por outras rotas. Versa basicamente da conexão autor – obra – interpretação da obra pelo autor. Enquanto folheava alguns papéis antigos em minha estante, deparei-me com uma frase de um filósofo alemão chamado Friedrich Nietzsche que dizia: “Interpretação – Se me explico, me implico: não posso a mim mesmo explicar”.

A questão é: será que um autor ou emissor de um discurso pode interpretar imparcialmente sua obra? Aí está um dos grandes conflitos da interpretação: a relação entre autor e obra e vice-versa, partindo do pressuposto que ambos se confundem, ou até mesmo que a segunda seria fruto do primeiro. Analisando por este prisma infere-se que é impossível entender e realizar o trabalho interpretativo sem trilhar pelos caminhos da essência da personalidade, sentimentos e intelecto do autor. Não seria então possível uma interpretação imparcial, de onde se distinguem criador e criatura, ignorando a interligação de ambos. De fato, a abstração é irreal.

Trazendo esse devaneio para um outro ângulo, não muito distante do anterior, a interpretação quando realizada pela fonte produtora do pensamento seria até limitada, comprometida e talvez tirana em muitos casos, como nas interpretações das leis alemãs por Adolf Hitler no tocante aos judeus. Ele as criou e as interpretou. Daí deduzimos que a obra é resultado das dinâmicas da personalidade e do intelecto daquele que cria, portanto, a interpretação daquela por este resulta numa exegese do próprio “eu”, tornando-se puramente psicológica e dotada de preconceitos.

Conhecer autor e obra, ou como diria Ortega y Gasset conhecer o autor e a obra com suas respectivas circunstâncias é mais uma arma no método interpretativo. Contudo, quando se tenta interpretar o próprio conhecimento, e ainda sem atentar para as conjunturas que recheiam os momentos de criação, somente há de cair nas próprias falhas, podendo até sufocar outros entendimentos sobre os assuntos abordados. A beleza e a mutabilidade benéfica da interpretação está na possibilidade de se conhecer o “psiquê” do criador, partindo-se de pensamentos próprios, mas adequáveis a novas descobertas.

Partindo-se desse princípio, estou inapto a interpretar imparcialmente (se é que existe interpretação imparcial) o que o leitor acabou de ler. É possível que dentro dessas poucas e singelas palavras cada mente tenha extraído elementos muito além da minha imaginação, expandido o pensamento e descortinado novos horizontes do tema exposto. Com toda a demasia não me atrevo a dizer que “quis dizer isso ou aquilo”. Se assim o fizesse, estaria interpretando a mim mesmo.

LUCENA FILHO

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Jetcemany


Primeira diligência do dia, às 09:00 da manhã. Estou lá cumprindo meu mister quando passo por uma lojinha chamada Comercial Jetcemany (?). E eu pensando que Getsêmani era em Israel.

Não pude deixar de registrar essa pérola do marketing pós-moderno:

TEMOS ARTIGOS DIVERSOS EM CONFECÇÕES, CEREAIS E ETC.

A perguntinha inócua é: como assim???

Seria algo do tipo: “Moço, essas calças são último lançamento, mas esse feijão carioquinha também está maravilhoso” ou “3 kg de milho e uma cueca tamanho M pra viagem” ou “Promoção da semana: compre uma calcinha e ganhe um sucrilho”

Mas e o 'ETC'? Duas interpretações são possíveis: 1) lá vende etc 2) lá vende qualquer coisa que sua mente consiga imaginar: pito de câmara de ar, dedal, coloral reieira, picolé caseiro de Caicó, Tupperware do Paraguai, pão doce enrolado em jornal de ontem, cachaça envelhecida, palheta pra violão, buzina de bicicleta Monark, maçã do amor, chiclete Ploc e o resto vocês dizem...

LUCENA FILHO

domingo, 11 de janeiro de 2009

Tibério

Fruto Sagrado - Superman



Trinta de novembro de dois mil e seis. Vinte e três horas e cinqüenta e sete minutos. Céu sem estrelas, vento parado, calor escaldante, pensamentos preguiçosos, uma música melancólica, novembro indo embora, dezembro (e suas hipocrisias) acenando e dedos atacando um teclado amarelado era tudo o que Tibério tinha ao seu dispor naquele dia. Era surpreendente como a vida podia ser tão bela, cheia de sentido, colorida, dinâmica e ao mesmo tempo monótona, nebulosa, complexa e passageira. Tirara o dia para pensar como em alguns momentos era tão imbatível, verdadeiro superhomem moral e no instante posterior um golpe de perguntas, tristezas, espanto e sentimentos obscuros o invadiam como o odor de uma Alfazema suplanta um ambiente perfumado com fragrâncias finas; uma espécie de horizonte nublado: encantador, mas nostálgico e carregado de lembranças.

Sabia ele que paradoxos como aqueles o tornavam humano de verdade, repleto de dialéticas inexplicáveis e sensações contraditórias capazes de transmutá-lo em algo provisoriamente estranho, mas que no fundo era parte dele mesmo – o chamado lado negro da força. A essência da questão era saber lidar com essa alternância de humores, pensamentos e embates cognitivos. Mas como encarar esta guerra se era tão frágil quanto à própria sinceridade? Bastava alguns elementos como ausência de distorções elétricas, palmas, percussões, uma pitada de meia luz e uma dúzia de minutos mergulhados no nosso próprio 'eu' e alguns olhares para o alto para que nosso castelo de boas expectativas, sorrisos e fraternidade desmoronassem. Era ele influenciado por tudo, menos pelos valores pregados. Aliás, essas circunstâncias (boas ou más) fundamentavam a construção dos princípios dele e estado de espírito (?).

Estava confuso. Aquela era uma noite sem muitas respostas. Lançava as perguntas como se joga papel picotado nos arranha-céus paulistas em fim de ano. Perguntas para a vida, sobrevida, morte, certo, errado, bom, mal, amigos, inimigos, amor, paixão, momentos, eternidade e outros questionamentos semi-inexplicáveis e autointerpelações indignas de citação. Definitivamente não tinha as respostas que gostaria e isto o massacrava. Resultado: oscilava entre instantes de felicidade e completa resignação, mas, principalmente, traduzia-se numa busca constante de sentido para tudo que fazia, falava, pensava. Esta procura era trilhada por espinhos, pedras, pessoas, fatos, problemas, contentamento, os quais juntos uniam-se na busca de uma sensação comumente chamada de felicidade. Felicidade esta variável, conforme já falado, de acordo com os elementos componentes da atmosfera psicológica existente em determinado lugar, a uma certa hora e incidente sobre determinada pessoa.

Tibério, cansado de si mesmo, desligou o computador e mergulhou na alma despedaçada. Em busca de quê? Nem ele ao certo sabia...

LUCENA FILHO

sábado, 10 de janeiro de 2009

Coldplay - Fix you

Foram acusados de plágio, mas até nisso eles são bons. Música do momento. Por hoje é só.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Epifania

Ainda me lembro que lá pelos meus doze ou treze anos, uma de minhas irmãs conseguia arrebatar minha paz, ao me chamar de Epifânio. Por algum motivo, além do impacto vocálico-sonoro, tal apelido me inquietava. Sentia-me afrontado, achincalhado, mas não sabia eu que estava sendo elogiado. Recordo, também, de tratar-se do nome de um árbitro de futebol de nacionalidade colombiana e de fenótipo semelhante ao meu.

Pois bem. Bastava um arremedo de pouco tempo para despertar instintos furiosos na alma daquele ser espinhento. Eu nem mesmo sabia o que significava, na essência, o valor escondido nas entrelinhas daquele aperreio pueril.

Dia desses, estava eu vendo alguma programação na televisão e adquirindo necessidades na sessão da tarde (créditos para Chico Science) e vi uma explanação sobra a Epifania. De fato, a palavra – uma das preferidas de Clarice Lispector nos seus contos – na sua literalidade, traduz-se como um momento privilegiado de revelação, isto é, quando determinado incidente ou mesmo circunstância torna-se luz na vida de alguém. Em outras palavras, quando a ficha “cai”. A inexplicável sensação de ver uma segunda saída, a emoção de se sentir iluminado por uma palavra, idéia ou sentimento e o entendimento de que é perfeitamente possível optar por outros caminhos é o ápice do fenômeno em apreço.

A epifania geralmente (digo geralmente porque alguns indivíduos nascem e morrem sendo platéia das suas dificuldades) é parte integrante da vida humana. Em certos casos surge tarde demais; em outros, tempestivamente para reverter situações. O relevante é que ela existe e é imprescindível para a sobrevivência da nossa raça. Um exemplo pragmático: chegará o momento em que, finalmente, perceberemos que o aquecimento global é sinônimo verdadeiro de extinção das condições de sobrevivência do homo sapiens. Quando e como isso vai acontecer? Incógnita!

Então. A rotina tende a nos tornar seres unidirecionalmente focados. Vemos as mesmas pessoas, sempre repetimos os mesmos discursos, problemas e fatalmente encaramos toda a estrutura vital sob um único ângulo. Isto porque, de acordo com o provérbio espanhol, “la repetición es la madre de la retención”. Explico-me: de tanto repetirmos as ações retemos maneiras oblíquas e tortuosas de lidar com o próximo e nós mesmos. Em algum momento, um surto genial é peça imprescindível para mudar totalmente o rumo dos nossos caminhos. O 'como eu não pensei nisso antes', muito mais que um slogan epifânico, é uma das molas propulsoras na mudança do estilo de vida e de relacionamento comunitário.

A epifania resume-se essencialmente à mudança. Esta, por sua vez, brota a partir do momento em que há o reconhecimento da necessidade de extrapolar os modelos adquiridos durante toda uma vida, mas que, com a ajuda do momento de despertamento, são relegados a um segundo plano, pois esclerosaram-se em si mesmos. A partir daí, os paradigmas são substituídos, o olhar psicológico e emocional tem o foco ajustado para os novos referenciais e, diferentemente de antes, a forma de agir ou interpretar as atitudes (nossas ou de outrem) passa a ser vista por uma lente até então desconhecida.

Tudo o que foi falado até este ponto, pela própria complexidade do tema, aparenta ser metafísico demais para uma leitura despretensiosa. Porém, o mundo clama por este fenômeno. Caminha-se desenfreadamente para um abismo de valores, de idéias, de concepções. Vive-se a cada dia de acordo com os ferozes padrões midiáticos, sempre repetindo e reproduzindo comportamentos massificados e uniformes para uma sociedade tão disforme. Pessoas são transformadas naquilo que não nasceram para ser. Tudo é igual, mesmo quando todos são diferentes.

A bancarrota dos relacionamentos, a falta de esperança e expectativas, a venda sutilmente encaixada na visão crítica já turva e a fabricação de um homem que vive por viver são apenas algumas das consequências da utilização dos antigos espectros. A alma, o coração e a mente demandam novos caminhos. O mundo prescinde de humanos dispostos a mudarem de rota ao ponto de causar impactos relevantes na forma de se conviver. Repensar e mudar é viver.

LUCENA FILHO

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Problema seu

Sabe aquelas atitudes que você sempre tem, mas nunca parou pra pensar sobre elas? Aqueles comportamentos só perceptíveis por nós mesmos quando ouvimos alguém falar sobre eles? Pensou? Perfeito. Então, posso continuar...

No último domingo, como de costume, fui à igreja. O pastor discorreu sobre um tema no mínimo interessante, do qual poucos estão imunes e outros tantos nem imaginam seus estados de doentes da SCP - Síndrome de Culpabilidade do Próximo. Eis o título da ministração: “Em quem está o problema?”. Prestei atenção em cada palavra daquele sermão e cheguei a algumas conclusões, as quais estão diluídas nas palavras a seguir.

Por acaso, o precioso leitor já notou que atrelado ao aparecimento um problema surge a necessidade de acharmos um culpado? Normal para um mundo movido a causas e conseqüências. Mas aí não está o “nó” da questão. A problemática vai além. Trata-se de do costume de sempre designar o outro como responsável pelas nossas intempéries. Os governos culpam uns aos outros, filhos culpam os pais e vice-versa, alunos 'descarregam' nos professores e assim por diante. Tem gente culpando até Deus pelas mazelas da vida.

Todavia, essa postura não é de hoje. Segundo descreve a Bíblia, ao ser questionada pela Serpente o porquê de não comer do fruto proibido, Eva culpou Deus por impor limites. Depois de ceder a tentação, foi argüida pelo Criador e desta vez acusou a enganadora de seduzi-la.

Há uma cultura psicológica de nomear o próximo como a razão de nossas circunstâncias. Por exemplo, imaginemos um caso no qual um sujeito X foi demitido. Se perguntado sobre o motivo de sua saída provavelmente dirá que não sabe a causa, poderá alegar perseguição do chefe ou até mesmo mediocridade do emprego. Talvez 1% dos dispensados assumam que foram despedidos por ineficiência, incompetência no desempenho funcional, falta de assiduidade ou insubordinação.

Com efeito, grande parte de nossas dificuldades são resultados de decisões impensadas e reflexos de deficiências de caráter. Contudo, o orgulho ferido nos faz insistir na idéia de que nunca somos vítimas de nossos erros. Como normalmente precisamos achar bodes expiatórios para nossas tragédias, é muito mais cômodo olhar para os lados e escolher alguém para sofrer a condenação.

Assumir falha e confessar deslize não é uma das coisas mais fáceis. Os padrões ditados pelo humanismo moderno são uma verdadeira apologia ao individualismo e culto ao EU. Daí, ser tão difícil para uma sociedade eminentemente egocêntrica reconhecer suas próprias imperfeições.

Estamos mal acostumados a olhar continuamente para o outro. Quem sabe se ao ler esse texto o paciente leitor não imaginou se tais deduções não seriam perfeitas para Fulano, Sicrano ou Beltrano. E por que não seriam úteis para você? Isso mesmo. Para Vossa Senhoria aí do outro lado que desliza a visão pelos parágrafos deste escrito sem entender o real motivo pelo qual foi redigido.

Não é possível olvidar a seguinte situação fática: ao apontarmos para alguém, um dedo indica nossa vítima, outro vai em direção ao céu e os três restantes nos censuram. E então? Em quem está o problema?

LUCENA FILHO

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Recesso, diligências, cansaço e Jesus



Boa noite, alguém aí? São 19:00h e eu acabei de chegar em casa. Normal se eu não tivesse saído às 07:00h. Há razão para tanto. Hoje, o Judiciário retornou do recesso forense. E voltei trabalhando no três (quem me conhece, sabe do que estou falando). Chego eu, todo sorridente na Vara do Trabalho, e fico sabendo das férias da colega que divide os poucos 26 municípios da jurisdição comigo. Em outras palavras, toma que o filho é teu. Daí todo mundo decidiu distribuir mandados, notificações, alvarás de uma vez – a maioria com urgência pra ontem. Agora imagine a cena: eu no centro da sala e todos berrando meu nome.

Agora o que eu não entendo é o seguinte: se houve um recesso de 15 dias e eu entrei nele sem nenhuma pendência, como no primeiro dia do retorno eu recebo quase 70 mandados? De onde eles vieram? Que tanto protocolo e petição foram essas? Fico pensando se no recesso os advogados não estavam aproveitando suas merecidas férias (já que essa pausa no fim do ano tem o propósito de proporcionar descanso aos causídicos). Provavelmente, na ceia do natal alguns deles falaram “vocês me esperam antes de partir o peru? Tou concluindo uns embargos à execução” ou “eu sei que são 23:00h do dia 31 de dezembro, meu filho, mas eu não vou poder ir ver a queima de fogos pois tenho que requerer a penhora de três galinhas”. A grande pergunta é: onde fica a horta dos mandados? Como eles nascem tão rápidos mesmo todo mundo estando de 'férias'? Enfim...

Então, passei a manhã assinando protocolos, preenchendo guias, manuseando processos, revisando mandados, etc. Lá vou eu pra tão famigerada praia de Pipa cumprir trocentas diligências. Para se ter uma breve noção, a Praia de Pipa em janeiro é tão lotada que no ônibus até o motorista vai em pé. Você não sabe se está no Rio Grande do Norte ou em Helsinki, Lisboa, Estocolmo ou na 25 de março em São Paulo.

Voltando... rodei mais que peru bêbado em véspera de Natal, pois naquela praia é assim: ou o nome da rua é projetada ou eles mudam diariamente. Mês passado fui num lugar que se chamava Rua da Mata e hoje descobri o novo nome: Rua do Amor. A máxima lá é os próprios moradores mudarem os nomes das vias aparentemente de acordo como estado de espírito. Só tenho medo que de chegar num dia futuro e descobrir que um nervosinho a renomeou de Rua da Puta que o Pariu. Lá tem dessas coisas...

Daí, fiz o de praxe: fui xingado (já estava sentindo falta, confesso), tive que ser o psicólogo de todas as horas, ganhei fiu-fiu de adolescente tarada, aguentei mentira deslavada de reclamado (do tipo “nem conheço esse reclamante”), etc, etc. Finalmente, cheguei na última diligência, parei o carro na porta do casarão do executado, tirei a notificação da pasta e bati a famosa palma de mendigo, ou seja, você bate e olha pelo buraco do portão pra ver se tem gente.

Lá vem um senhor alto, perto de 1,90m, muito simpático e eu olho apreensivo na intimação e digo:

- Gostaria de falar com o Sr. Jesus. (Pois é. O nome da pessoa era Jesus e eu não tinha olhado antes e, portanto, tive de me controlar, pois sou besta pra rir).
- Soy yo. (Detalhe: Jesus era espanhol e nunca me informaram). ¿Quieres entrar en mi casa?
- Sim, sim, obrigado. (Quem é louco de recusar um convite desse?)
- Água? (da vida???)
- Não, muito grato.

O estranho era tratar aquela pessoa por Sr. Jesus, e dizer graças a seu Pai, digo, graças a Deus. E o pior, executar dívida trabalhista de Jesus. Fiquei constrangido, especialmente porque em Colossenses 2:14a diz “tendo (Jesus) cancelado o escrito de dívida, que era contra nós”. E agora? Eu é que não tenho coragem de cobrar de novo...

Depois dessa, o melhor a fazer foi juntar os trapos e vir pra casa.

LUCENA FILHO

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Tão perto, tão longe


Há algumas semanas venho amadurecendo meu complicado e áspero relacionamento com a impiedosa solidão. A odisséia de pensamentos foi corroborada com uma declaração seca e com gosto de desabafo de alguém próximo: “eu me sinto só no meio da multidão”. Quando me pus a pensar e, por alguns instantes analisar, percebi a pureza e sinceridade daquelas palavras e desde então dediquei alguns minutos diários ao conhecimento dos efeitos do estar ou sentir-se só”.

Conheço uma dúzia de pessoas que se apavoram somente em cogitarem a idéia de ficarem desacompanhadas, seja no presente ou em tempos futuros. Vale lembrar aqui, e não precisa ser nenhum filólogo para deduzir tal entendimento, que a solidão implica não somente o companheirismo, mas o cruel estado de espírito de sentir-se incompreendido por todo e qualquer ser vivo do universo. Para ser mais preciso, uma inexplicável sensação de vazio angustiante e de singularidade existencial, ao qual muitos rotulam erroneamente de depressão.

Haja vista a solidão física ser muito óbvia e empírica, decidi relegá-la a um plano de menor discutibilidade. Debrucemo-nos sobre o segundo sentido.

Pois bem. É até contraditório como a modernidade e suas benesses são capazes de, sem muita mobilidade, nos conectar com alguém Japão e com tal indivíduo desenvolver uma conversa sobre qualquer assunto, mas ao mesmo tempo dificulta o diálogo com nosso próprio eu.

Parece bem mais simples – por uma conversa virtual – falar do problema daquele amigo que você vê todos os dias do que ter um momento pessoal de confronto e objetividade.

Nesse mesmo sentido, é bem perceptível que nas novas formas de convivência, as inúmeras tarefas diárias assassinam qualquer possibilidade de se compartilhar experiências das mais diversas naturezas. A hiperatividade frenética, a academia, o cinema semanal no shopping, as idas religiosas ao salão de beleza, as utópicas oito horas de trabalho, a sedutora internet com seus sites de relacionamentos, a programação televisiva com seus padrões questionáveis e tratantes de um mundo irreal tem afastado o homem do seu semelhante. Absurdamente (ou não) pessoas vivem sob o mesmo teto por um laço abstratamente denominado de família, mas desconhecem completamente as verdades e conflitos daquele que dorme no quarto ao lado. A convivência rotineira engessa os relacionamentos, tornando-os distantes, frios, quando não inexistentes.

É diante desse contexto que um grito desesperado ecoa da alma de cada um. Perguntas com respostas antes tão simples parecem agora tão complicadas de serem atendidas e dia após dia tem-se a impressão que o mundo gira em velocidade dobrada e ao contrário. A estranha sensação de que o ator da novela que interpreta na sala de nossa casa está mais próximo que aquele senhor introspectivo – popularmente conhecido como pai - sentado no sofá ao lado nos leva a uma fuga constante da drástica situação de solidão num ambiente repleto de pessoas.

Que o nível de solidão é determinado pela qualidade de diálogo emitido por aqueles que nos rodeiam é indiscutível. Porém, o perigo reside justamente em se deixar abater e entrar no mesmo comportamento viciado dos que proporcionam o isolamento de relações. É necessário abrir canais de comunicação e utilizar os momentos de solidão, seja ela física ou disfarçada, para encontrar-se consigo e detectar as motivações do coração. Quando se está sem amigos, família ou comunicação mais profunda só resta o ego, os sonhos, as expectativas, os sentimentos, as angústias e frustrações. É na quietude da ausência de influências externas que descobrimos quem realmente somos a ponto de sermos aquilo que repetidamente fazemos.

Surpreendentemente, por vezes, uma alta exigência de compreensão pode ser anunciada e aí o solitário tem que ceder. E é entre razões, emoções e descobrimento de valores e feridas que a mudança nasce. Não esperar que a iniciativa de fazer diferente venha do próximo, porém se fazer presente na vida dos que estão por perto, conhecendo e se deixando conhecer. Aprender a lidar com cada um desses elementos e libertar-se do efeito venenoso que pode haver neles é essencial para, aos poucos, deixar de estar tão perto, mas tão longe...

LUCENA FILHO

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Boa música

Pra fazer bem ao corpo, à mente e ao coração...

Memórias

Hoje despertei com a sensação que inquieta os apaixonados, os poetas e que nenhum ser vivo conseguiu defini-la: a saudade. Geralmente as pessoas encarregam-se de arrebatar a maior parte das nossas ausências sentimentais. E com razão, se partirmos do pressuposto que as companhias são quem determinam as impressões mais íntimas e profundas a respeito de determinado lugar ou época.

Porém, para variar, experimentei uma sensação distinta, mas não menos nobre. Tive saudades da minha terra natal, do solo que me pariu, dos primeiros ares que respirei e que, em mim, imprimiram a marca de legitimidade local. É de lá que vim e sempre me reportarei como torrão inicial, o qual nunca apagarei das áreas mais especiais e aconchegantes da mente.

Talvez pelo fato de estar longe daqueles a quem se ama, da distância do seu lugar original, ou mesmo pela inexistência de rotina familiar, reflexões e sentimentos além dos convencionais são despertados. Tudo toma um valor diferenciado do que se tinha antes. Os detalhes mais simples, os locais longínquos, os amores vividos e “esquecidos”, as maneiras peculiares de se expressar e a realidade de se sentir parte integrante e autêntica de uma comunidade passam de simples hábitos diários a uma lembrança nostálgica e sem data para se tornar concreta novamente.

Tudo parece claro e nítido quando se trata de lembranças das origens. Ainda me recordo com perfeição das manhãs frias e nebulosas da Rainha da Borborema, bem como das pessoas com olhares sofridos, inquietos e que se abarrotavam no ônibus lotado das seis e vinte da manhã. As imagens das subidas na ladeira da Rua José Augusto Trindade, do Monte Santo, são mais reais do que os pensamentos que fluem e jorram de mim nesse exato momento. Lá estava eu, com uma mochila maior que minhas costas e cujo um dos brindes foi uma leve e incômoda escoliose. Mas isso não parecia um grande esforço diante dos projetos que se avolumavam naquele coração com onze anos de pulsação.

Dentro da mochila existiam livros, cadernos, canetas e muitos, muitos sonhos. E foi naquela terra dos Ariús, de clima ameno e uma população carinhosa e hospitaleira que muitos dos primeiros anseios, fantasiosos ou não, se realizaram. Nos limites dos rincões campinenses os livros e cadernos transformaram-se em prêmios, lições de vida, prazeres, conhecimento e algumas pitadas de liberdade. Também foi lá que descobri a capacidade própria de pensar e formular idéias originais e até hoje sou conduzido por tal valiosa e única descoberta.

Tenho uma dívida impagável para com as ruas daquela urbe, em espeicla pelo sucedido no dia em que, do alto do medo mixado com adrenalina dos meus dozes anos, respondi ao jovem delinqüente da impossibilidade dele levar meu relógio, pois só possuía aquele. Senti-me como o apóstolo Pedro quando respondeu ao paralítico na porta do Templo: “não tenho ouro nem prata, mas o que eu tenho, isto te dou. Levanta-te e anda”. Obviamente, minha resposta não foi tão ousada e crente como a do discípulo pescador, mas era como se ao olhar para aquele jovem, conseguisse transmitir-lhe que meus sonhos, ainda noviços, e capacidade de compartilhar-los pudessem ajudá-lo mais do que o resultado do roubo. E desde então, quando alguém se sente vazio e desapontado e me pede auxílio tento inculcar sonhos na mente e no coração do ajudado.

Hoje, de certo modo, cambiei em certos aspectos, até mesmo pela dinâmica psicoevolutiva que a vida e seus padrões impõem. Conquanto, tudo que experimentei, vivi e sofri no solo de onde vi foi um suporte memorável para sustentar as mudanças que se sucederam e orientar-me a chegar onde estou. Certamente, num futuro ainda indeterminado, falarei o mesmo de onde estou hoje, haja vista as memórias serem as fotografias da história, capazes de nos fazerem agir de acordo com o que realmente somos e não movidos por impulsos perigosamente momentâneos.

O lugar de onde vim me proporcionou boas oportunidades de registrar fatos importantes e formadores da personalidade. De lá sinto falta. Aproveitemos onde estamos e tiremos boas fotos. Um dia elas serão lembranças. Nossa futura memória agradece.

LUCENA FILHO

domingo, 4 de janeiro de 2009

Pimenta


Momento curiosidade e utilidade pública. Não sei se alguém aí gosta, mas gosto muito de pimentas. Vi essas informações no site do Wikipédia e achei interessante.

LUCENA FILHO, H. L. de.

"Uma das principais características culturais das tribos indígenas que habitavam as terras brasileiras na época do descobrimento era o cultivo de pimentas. Após o descobrimento, as sementes e frutos de pimentas passaram a ser cada vez mais cultivados, disseminado entre vários povos, utilizadas de diversas formas.

A 'Capital Nacional da Pimenta', como é conhecido o município de Turuçu, RS [1], começou a cultivá-la no final do século XIX. Tal informação pode ser comprovada pelos depoimentos dos produtores da região, muitos deles já de idade elevada, tendo passado dos sessenta anos de idade, que relembram a cultura do cultivo, passada a eles por seus pais.

A pimenta faz bem à saúde e seu consumo é essencial para quem tem enxaqueca. A substância química que dá à pimenta o seu caráter ardido é exatamente aquela que possui as propriedades benéficas à saúde. Elas provocam a liberação de endorfinas - verdadeiras morfinas internas, analgésicos naturais extremamente potentes que o nosso cérebro fabrica! E quanto mais endorfina, menos dor e menos enxaqueca. E tem mais: as substâncias picantes das pimentas melhoram a digestão, estimulando as secreções do estômago. Possuem efeito antiflatulência. Estimulam a circulação no estômago, favorecendo a cicatrização de feridas (úlceras), desde que, é claro, outras medidas alimentares e de estilo de vida sejam aplicadas conjuntamente. Existem estudos que demonstram que a pimenta é um potente antioxidante (antienvelhecimento) e antiinflamatório. A pimenta possui até propriedades anticâncer. [texto: Dr. Alexandre Feldman]".

Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Pimenta"

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Viernes


Es viernes. Para muitos, o melhor dia da semana se inicia, enquanto para outros o suplício de ter que enfrentar a impiedosa solidão do fim de semana só está a começar. O sol está alto, causticante e impiedoso. As pessoas andam, falam, discutem, compram, vendem, olham, observam. Tudo parece normal, exceto para quem acha que a vida não é feita de atos previsíveis e normais. Os passos do rapaz o levam ao mesmo local de todas as sextas-feiras: ao templo do conhecimento das mentes doentias, criativas e tendenciosas dos diretores de cinema. É lá onde, sem exceção, que ele fica parado, deslizando o olhar sobre os títulos e folders das obras milionárias.

O que escolher hoje? Quem sabe um thriller, para dar um pouco mais de agitação aos pacatos dias proporcionados pela monotonia reinante? Mas o momento não é para imagens mais bruscas. As circunstâncias que afligem o homem tornam-se parte dele, já pregava Ortega y Gasset. Partindo-se desse pressuposto e levando-se em conta o crônico estado de melancolia que envolvia o jovem, não era hora de sacudir as estruturas com imagens cinematográficas.

Descartada a sessão de aventuras, passou o rapazote às prateleiras de filmes de terror. Nunca tinha sido despertado por aquele tipo de criação. Ter que passar uma, duas horas vendo os reflexos de pensamentos macabros, diabólicos e até sem graça de pessoas desajustadas era muita perda de tempo e de dinheiro.

A impaciência já estava querendo latente. A mão já passara pela barba rala mais de meia dúzia de vezes. Como num gesto súbito de iluminação ele vê um título na prateleira inferior do seu lado direito. Sem pestanejar, abaixou-se a apoiou o corpo preguiçoso sobre as pernas dobradas. Lá estava, do que se tratava? Ah, era um daqueles filminhos de comédia Hollywoodianos, produções plastificadas com cunho de entretenimento à moda American Way of Life. Olhou uma vez, virou a capa, nem leu a sinopse para não devolvê-lo à estante mais rápido do que o gatilho de Clint Eastwood.

Quando se deu conta, o case colorido já preso aos dedos cálidos. Por um instante, o pensamento tomou as estradas da imaginação e esvaindo-se daquele local, daquela cidade. De alguma maneira, a mente parecia leve e pesada ao mesmo tempo. Virou o rosto para a entrada e passou não mais que vinte segundos olhando fixamente para o movimento das pessoas. Como se despertasse de um coma, conseguia vê-las de maneira diferente e até com certo grau de compreensão. Pareciam perdidas, esquecidas, como aquele filme abandonado num canto da loja.

Abstraiu e cogitou: se as vidas daqueles indivíduos fossem representadas em filmes, qual seria? Alguns, provavelmente, diante de suas aflições, angústias e marcas emocionais seriam elenco de um “Esqueceram de Mim”. Outros, pela forma despretensiosa de como encaram seus problemas, encaixariam-se nos clássicos infantis. Uma terceira classe, com a luxúria que correm os olhos e invadem o coração só seriam exibidos como eróticos. Os com histórias trágicas, romances esfacelados, sonhos enterrados estariam no estilo dramático.

Subitamente, aquele raio de análise sócio-cinematográfica foi interrompido. Uma partida de futebol estava a ser assistida por algumas pessoas ali naquele local e foi quando a uma premissa rápida e retumbante ocupou os neurônios do moço: “para muitos, a vida não é nem filme nem desenho. É apenas um jogo com tempos contados em anos, onde o juiz tem poder de vida e de morte sobre os jogadores, os quais seguem as regras quando lhe são convenientes”.

Já não era mais necessário colher outros títulos. O garoto sacou o dinheiro do bolso, enquanto o atendente fazia algum tipo de comentário. Não havia ouvidos para críticas artísticas naquele momento. Só o que brilhava no mais íntimo da memória era a matéria-prima para o produto do fim de semana. Um filme cômico e uma conclusão óbvia. Ambos com suas peculiaridades, mas com funções semelhantes: diversão mental. Agora, só restava esperar os desdobramentos dominicais.

LUCENA FILHO, H. L. de.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sem planos


31 de dezembro é um dia especial não porque todo mundo separa essa data para fazer mais promessas do que beato em procissão no Juazeiro. O último dia do ano, além de ser aniversário de alguém especial - minha mãe - é para mim tempo de agradecer. Nunca faço votos, propósitos, não dou sete pulinhos, faço questão de não usar branco ou rituais do tipo. Eu só agradeço pelo O2 de todo o ano e pela divina força que me manteve de pé. Creio piamente que o segredo do sucesso está na gratidão e, mesmo sendo muito 'reclamão', Deus tem usado alguém para abrir meus olhos quanto a isso: CP.

As realizações de 2009 deixo por conta dele mesmo. Entrei no novo ano junto com a família, amigos, fazendo papel de animador de palco, estourando balão, dando risada, cantando, dançando xote (ainda que não saiba muito bem) e sem nenhum plano ou jargão.

Agora é esperar pra ver.

Frase do dia: "Propriedades podem ser destruídas e o dinheiro pode perder o seu poder de compra; mas o caráter, a saúde, o conhecimento e o bom senso serão sempre procurados sob quaisquer circunstâncias." (Roger Babso)

LUCENA FILHO