domingo, 11 de janeiro de 2009

Tibério

Fruto Sagrado - Superman



Trinta de novembro de dois mil e seis. Vinte e três horas e cinqüenta e sete minutos. Céu sem estrelas, vento parado, calor escaldante, pensamentos preguiçosos, uma música melancólica, novembro indo embora, dezembro (e suas hipocrisias) acenando e dedos atacando um teclado amarelado era tudo o que Tibério tinha ao seu dispor naquele dia. Era surpreendente como a vida podia ser tão bela, cheia de sentido, colorida, dinâmica e ao mesmo tempo monótona, nebulosa, complexa e passageira. Tirara o dia para pensar como em alguns momentos era tão imbatível, verdadeiro superhomem moral e no instante posterior um golpe de perguntas, tristezas, espanto e sentimentos obscuros o invadiam como o odor de uma Alfazema suplanta um ambiente perfumado com fragrâncias finas; uma espécie de horizonte nublado: encantador, mas nostálgico e carregado de lembranças.

Sabia ele que paradoxos como aqueles o tornavam humano de verdade, repleto de dialéticas inexplicáveis e sensações contraditórias capazes de transmutá-lo em algo provisoriamente estranho, mas que no fundo era parte dele mesmo – o chamado lado negro da força. A essência da questão era saber lidar com essa alternância de humores, pensamentos e embates cognitivos. Mas como encarar esta guerra se era tão frágil quanto à própria sinceridade? Bastava alguns elementos como ausência de distorções elétricas, palmas, percussões, uma pitada de meia luz e uma dúzia de minutos mergulhados no nosso próprio 'eu' e alguns olhares para o alto para que nosso castelo de boas expectativas, sorrisos e fraternidade desmoronassem. Era ele influenciado por tudo, menos pelos valores pregados. Aliás, essas circunstâncias (boas ou más) fundamentavam a construção dos princípios dele e estado de espírito (?).

Estava confuso. Aquela era uma noite sem muitas respostas. Lançava as perguntas como se joga papel picotado nos arranha-céus paulistas em fim de ano. Perguntas para a vida, sobrevida, morte, certo, errado, bom, mal, amigos, inimigos, amor, paixão, momentos, eternidade e outros questionamentos semi-inexplicáveis e autointerpelações indignas de citação. Definitivamente não tinha as respostas que gostaria e isto o massacrava. Resultado: oscilava entre instantes de felicidade e completa resignação, mas, principalmente, traduzia-se numa busca constante de sentido para tudo que fazia, falava, pensava. Esta procura era trilhada por espinhos, pedras, pessoas, fatos, problemas, contentamento, os quais juntos uniam-se na busca de uma sensação comumente chamada de felicidade. Felicidade esta variável, conforme já falado, de acordo com os elementos componentes da atmosfera psicológica existente em determinado lugar, a uma certa hora e incidente sobre determinada pessoa.

Tibério, cansado de si mesmo, desligou o computador e mergulhou na alma despedaçada. Em busca de quê? Nem ele ao certo sabia...

LUCENA FILHO

Um comentário:

Zenara disse...

Gostei muito das suas postagens...mas me deixou curiosa seu amigo Tibério....um cara um tanto diferente, eu diria...autêntico...não é todo dia que conhecemos pessoas assim.