sábado, 17 de janeiro de 2009

Setenta dias

Texto do ano de 2007, mas está valendo...

Setenta dias. Isso mesmo. Hoje é aniversário de dois meses e dez dias, ou, caso prefiram, mil e seiscentas horas sem pensar ortograficamente. E não foi por falta de assunto. De lá para cá famosos morreram, a CPMF tomou os espaços da imprensa, o timão foi rebaixado, me apaixonei e desapaixonei umas cinqüenta vezes pelo Fiat Punto, dentre outros temas. Porém, a produção foi nula durante esse período.

Hoje parei para investigar o motivo de tanto ócio e desmotivação criativa e, para meu desespero, cheguei à óbvia conclusão que em setenta dias nada de interessante aconteceu na minha vida. O motivo da agonia é plausível. Na medida em que nesse período de tempo nada de interessante (leia-se arrebatador) se sucedeu na minha história, percebi que é tempo suficiente para se fazer muita coisa. De se preparar para um concurso público até plantar uma árvore e o início do florescimento há um leque de opções de atividades e fatos capazes de dar ânimo a vida de qualquer ser vivente.

Pois bem. A cada dia passado esperava um lampejo de inspiração, criatividade ou acontecimento digno de comento, mas “nem água”. E, para quem tem planos de um dia formar uma coletânea de texto, tal letargia não é lá um bom sinal. A impressão é de que estive ligado no piloto automático, reproduzindo ações sucessivamente e todo o universo quedava-se inerte. Provavelmente uma espécie de coma intelectual. Pessoas vieram e se foram, contas surgiram, pensamentos se dissiparam, conversas aconteceram e idéias foram trocadas. Tudo sem muita ação e reação. Próprio de andróides. Mas de uns minutos pra cá, curiosamente após ouvir uma meia dúzia de canções clássicas bálticas, pus-me a dedicar alguns neurônios às circunstâncias que nos mantêm em movimento.

Certamente, quem tem a obrigação de escrever todos os dias não espera que grandes toques de ânimo venham às suas almas. Imagino que buscam, por talento ou necessidade, burilar o já existente à disposição. E é isso a razão primária de muitos serem exitosos em tudo que fazem. Os grandes empreendedores não esperam setenta dias por uma boa idéia, projeto, luz. Eles simplesmente fazerm surgir o grande a partir do disponível.

Vejo pessoas serem tragadas pela depressão todos os dias porque esperam que algo fantástico abale os muros de rotinas emocionalmente avassaladoras. A única ressalva é que o fantástico só é exibido aos domingos... mas ele passa a semana sendo preparado! E aí está a chave para uma vida menos ordinária: fazer o extraordinário acontecer gradual e sucessivamente todos os dias. Aguardar que boas situações ocorram de forma intensa e maquiavélica, sem ao menos preparar o caminho para seu auge é apenas sobreviver a cada dia. Ninguém faz um download com conexão banda larga de vitórias; a lógica vital impõe, em regra, uma processamento discado em horário de pico para as realizações desejadas.

(Sobre)Viver esperando que o meteorito do ânimo, ineditismo, força e surpresa se choque com os estilos enrustidos de vida intelectualmente sedentários é usufruir uma sensação de setentas dias vazios a cada vinte e quatro horas. Atravessar o mar da vida sem esperar nada de ninguém em tempo algum, sem, contudo, parar de se debruçar sobre os planos desejados. No momento exato e, quiçá, antes dos citados setenta, tudo acontece!

LUCENA FILHO

2 comentários:

Jéssica Ethne disse...

"Ninguém faz um download com conexão banda larga de vitórias; a lógica vital impõe, em regra, uma processamento discado em horário de pico para as realizações desejadas." Real!!! Gostei da frase, foi esclarecedora pra mim!!! :D

Esperança disse...

Em 24horas farei você viver 70 dias completos.