sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Epifania

Ainda me lembro que lá pelos meus doze ou treze anos, uma de minhas irmãs conseguia arrebatar minha paz, ao me chamar de Epifânio. Por algum motivo, além do impacto vocálico-sonoro, tal apelido me inquietava. Sentia-me afrontado, achincalhado, mas não sabia eu que estava sendo elogiado. Recordo, também, de tratar-se do nome de um árbitro de futebol de nacionalidade colombiana e de fenótipo semelhante ao meu.

Pois bem. Bastava um arremedo de pouco tempo para despertar instintos furiosos na alma daquele ser espinhento. Eu nem mesmo sabia o que significava, na essência, o valor escondido nas entrelinhas daquele aperreio pueril.

Dia desses, estava eu vendo alguma programação na televisão e adquirindo necessidades na sessão da tarde (créditos para Chico Science) e vi uma explanação sobra a Epifania. De fato, a palavra – uma das preferidas de Clarice Lispector nos seus contos – na sua literalidade, traduz-se como um momento privilegiado de revelação, isto é, quando determinado incidente ou mesmo circunstância torna-se luz na vida de alguém. Em outras palavras, quando a ficha “cai”. A inexplicável sensação de ver uma segunda saída, a emoção de se sentir iluminado por uma palavra, idéia ou sentimento e o entendimento de que é perfeitamente possível optar por outros caminhos é o ápice do fenômeno em apreço.

A epifania geralmente (digo geralmente porque alguns indivíduos nascem e morrem sendo platéia das suas dificuldades) é parte integrante da vida humana. Em certos casos surge tarde demais; em outros, tempestivamente para reverter situações. O relevante é que ela existe e é imprescindível para a sobrevivência da nossa raça. Um exemplo pragmático: chegará o momento em que, finalmente, perceberemos que o aquecimento global é sinônimo verdadeiro de extinção das condições de sobrevivência do homo sapiens. Quando e como isso vai acontecer? Incógnita!

Então. A rotina tende a nos tornar seres unidirecionalmente focados. Vemos as mesmas pessoas, sempre repetimos os mesmos discursos, problemas e fatalmente encaramos toda a estrutura vital sob um único ângulo. Isto porque, de acordo com o provérbio espanhol, “la repetición es la madre de la retención”. Explico-me: de tanto repetirmos as ações retemos maneiras oblíquas e tortuosas de lidar com o próximo e nós mesmos. Em algum momento, um surto genial é peça imprescindível para mudar totalmente o rumo dos nossos caminhos. O 'como eu não pensei nisso antes', muito mais que um slogan epifânico, é uma das molas propulsoras na mudança do estilo de vida e de relacionamento comunitário.

A epifania resume-se essencialmente à mudança. Esta, por sua vez, brota a partir do momento em que há o reconhecimento da necessidade de extrapolar os modelos adquiridos durante toda uma vida, mas que, com a ajuda do momento de despertamento, são relegados a um segundo plano, pois esclerosaram-se em si mesmos. A partir daí, os paradigmas são substituídos, o olhar psicológico e emocional tem o foco ajustado para os novos referenciais e, diferentemente de antes, a forma de agir ou interpretar as atitudes (nossas ou de outrem) passa a ser vista por uma lente até então desconhecida.

Tudo o que foi falado até este ponto, pela própria complexidade do tema, aparenta ser metafísico demais para uma leitura despretensiosa. Porém, o mundo clama por este fenômeno. Caminha-se desenfreadamente para um abismo de valores, de idéias, de concepções. Vive-se a cada dia de acordo com os ferozes padrões midiáticos, sempre repetindo e reproduzindo comportamentos massificados e uniformes para uma sociedade tão disforme. Pessoas são transformadas naquilo que não nasceram para ser. Tudo é igual, mesmo quando todos são diferentes.

A bancarrota dos relacionamentos, a falta de esperança e expectativas, a venda sutilmente encaixada na visão crítica já turva e a fabricação de um homem que vive por viver são apenas algumas das consequências da utilização dos antigos espectros. A alma, o coração e a mente demandam novos caminhos. O mundo prescinde de humanos dispostos a mudarem de rota ao ponto de causar impactos relevantes na forma de se conviver. Repensar e mudar é viver.

LUCENA FILHO

6 comentários:

Jesiana disse...

Parabéns primo!!! Como sempre um texto brilhante. Sua maneira de escrever me fascina (sinceramente! rs). Já estou adquirindo o hábito (ótimo, diga-se de passagem) de vir conferir as suas reflexões diárias, que tanto me fazem bem! Sucesso sempre!!! bjos

Jéssica Ethne disse...

Mas uma vez aqui estou... esse me chamou muito a atenção!!! Lembrei das minhas aulas de Psicologia na Contemporaneidade... aiaiai, logo de quem eu lembrei daquele professor q implicou dois semestres comigo, mas que eu estava ali, atenta a cada palavra, admirando aquele espirito critico e revolucionário que gritava por quebrar regras, por efetivar mudanças, respeito a individualidade, criar ideias, da espaço para o novo e o diferente. Esse seu escrito me lembrou uma produção documentaria brasileira: "Estamira". Sem considerar criticas aos meus principios, assisti aquele video com outro olhar (rsrsrs - Psicologicamente falando). E ali vi que ser revolucionário foi Estamira num momento em q todos viviam a Epifania!!!
:)

LUCENA FILHO, H. L. de disse...

Jéssica, esse documentário está disponível na internet?

Jéssica Ethne disse...

Meu querido eu penso q tem sim... na realidade foi esse meu professor q levou... mas da uma olhadinha no youtube q deve ter...
Bjãooo ;)

Anônimo disse...

"O pai da Epifania é o mar."

sabia?

bjo LINDO.

Lauro Ericksen disse...

esse omi está todo metafísico...