sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Viernes


Es viernes. Para muitos, o melhor dia da semana se inicia, enquanto para outros o suplício de ter que enfrentar a impiedosa solidão do fim de semana só está a começar. O sol está alto, causticante e impiedoso. As pessoas andam, falam, discutem, compram, vendem, olham, observam. Tudo parece normal, exceto para quem acha que a vida não é feita de atos previsíveis e normais. Os passos do rapaz o levam ao mesmo local de todas as sextas-feiras: ao templo do conhecimento das mentes doentias, criativas e tendenciosas dos diretores de cinema. É lá onde, sem exceção, que ele fica parado, deslizando o olhar sobre os títulos e folders das obras milionárias.

O que escolher hoje? Quem sabe um thriller, para dar um pouco mais de agitação aos pacatos dias proporcionados pela monotonia reinante? Mas o momento não é para imagens mais bruscas. As circunstâncias que afligem o homem tornam-se parte dele, já pregava Ortega y Gasset. Partindo-se desse pressuposto e levando-se em conta o crônico estado de melancolia que envolvia o jovem, não era hora de sacudir as estruturas com imagens cinematográficas.

Descartada a sessão de aventuras, passou o rapazote às prateleiras de filmes de terror. Nunca tinha sido despertado por aquele tipo de criação. Ter que passar uma, duas horas vendo os reflexos de pensamentos macabros, diabólicos e até sem graça de pessoas desajustadas era muita perda de tempo e de dinheiro.

A impaciência já estava querendo latente. A mão já passara pela barba rala mais de meia dúzia de vezes. Como num gesto súbito de iluminação ele vê um título na prateleira inferior do seu lado direito. Sem pestanejar, abaixou-se a apoiou o corpo preguiçoso sobre as pernas dobradas. Lá estava, do que se tratava? Ah, era um daqueles filminhos de comédia Hollywoodianos, produções plastificadas com cunho de entretenimento à moda American Way of Life. Olhou uma vez, virou a capa, nem leu a sinopse para não devolvê-lo à estante mais rápido do que o gatilho de Clint Eastwood.

Quando se deu conta, o case colorido já preso aos dedos cálidos. Por um instante, o pensamento tomou as estradas da imaginação e esvaindo-se daquele local, daquela cidade. De alguma maneira, a mente parecia leve e pesada ao mesmo tempo. Virou o rosto para a entrada e passou não mais que vinte segundos olhando fixamente para o movimento das pessoas. Como se despertasse de um coma, conseguia vê-las de maneira diferente e até com certo grau de compreensão. Pareciam perdidas, esquecidas, como aquele filme abandonado num canto da loja.

Abstraiu e cogitou: se as vidas daqueles indivíduos fossem representadas em filmes, qual seria? Alguns, provavelmente, diante de suas aflições, angústias e marcas emocionais seriam elenco de um “Esqueceram de Mim”. Outros, pela forma despretensiosa de como encaram seus problemas, encaixariam-se nos clássicos infantis. Uma terceira classe, com a luxúria que correm os olhos e invadem o coração só seriam exibidos como eróticos. Os com histórias trágicas, romances esfacelados, sonhos enterrados estariam no estilo dramático.

Subitamente, aquele raio de análise sócio-cinematográfica foi interrompido. Uma partida de futebol estava a ser assistida por algumas pessoas ali naquele local e foi quando a uma premissa rápida e retumbante ocupou os neurônios do moço: “para muitos, a vida não é nem filme nem desenho. É apenas um jogo com tempos contados em anos, onde o juiz tem poder de vida e de morte sobre os jogadores, os quais seguem as regras quando lhe são convenientes”.

Já não era mais necessário colher outros títulos. O garoto sacou o dinheiro do bolso, enquanto o atendente fazia algum tipo de comentário. Não havia ouvidos para críticas artísticas naquele momento. Só o que brilhava no mais íntimo da memória era a matéria-prima para o produto do fim de semana. Um filme cômico e uma conclusão óbvia. Ambos com suas peculiaridades, mas com funções semelhantes: diversão mental. Agora, só restava esperar os desdobramentos dominicais.

LUCENA FILHO, H. L. de.

2 comentários:

fashion jewelry disse...

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Carla disse...

Eu penso que na vida de uma só pessoa há uma coleção de todos os estilos..

Na vida de tds há o tempo do drama, tempo da alegria, tempo do assombro, tempo do lúdico, e outros tempos mais que a arte ainda não contemplou nas suas expressões, posto que a arte imita a vida, e não o contrário.

Diz o Sábio que "até no riso tem dor o coração" !!! rs.........ou seja, a alma de outrem eh terreno desconhecido mesmo !!!

Não se deve ser simplista quando o assunto eh gente, ou seja, analisar pessoas de modo reducionista, quero dizer, categorizá-las em grupos estanques.

"As circunstâncias que afligem o homem tornam-se parte dele, já pregava Ortega y Gasset."

Discordo ousadamente !!!

Se os "caminhos para dentro" de nós(homem interior) estiverem aplainados, ao passar por "vales áridos" (circunstâncias) fazemos deles manancial. É possível transformar circunstâncias apenas com um novo olhar sobre elas lançado.
"Se teus olhos forem bons, todo teu corpo será luminoso. "

Assim penso, assim busco viver:

reciclando o olhar sobre a vida sempre, aplainando os caminhos para dentro de mim com fé, buscando transformar em mananciais as circunstâcias que afligem, para que as circunstâncias que afligem não se tornem jamais parte de mim.

Um beijo !!!