Meus caros, 2008 se foi! Cá estamos no aguardo do ano vindouro. Que em 2009 sejamos seres melhores que 2008 e piores que 2010. Agradeço aos meus poucos, mas valorosos, leitores pela atenção e carinho dispensados.
Espero todos aqui são e salvos próxima semana Deixo vocês com uma canção de Lenine (Paciência). Inspiradora para o próximo ano.
Feliz 2009!
LUCENA FILHO
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Até 2009
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Sei não...
Dia desses tava trocando umas idéias com CP e definitivamente vi como homens e mulheres têm chips diferentes. A impressão que tenho é que a programação é diferente. O assunto era basicamente amor, paixão e sentimentalidades. Eu, nos últimos 23 anos, tenho sido pragmático e desastroso para essas coisas. Sou muito melhor pensando em assuntos menos cansativos e desafiadores, mas as mulheres não. Ah, as mulheres (suspiro).... Elas são capazes de escrever uma Barsa só sobre a incapacidade humana de se relacionar de forma decente e eu acho isso o fantástico.
Particularmente, e não poderia ser de outra maneira, e poucas palavras não creio em sobrenaturalidades quando o assunto é amor. Fico com a frase de teatro mágico que diz os “dispostos se atraem e os opostos se distraem”.
Da discussão surgiu a pérola dessa figura trintenária e que admiro com ênfase. Com vocês, PORTO, Carolina. Espero a opinião dos meus ainda pouco leitores.
LUCENA FILHO, H. L. de.
Sei não...
Esses dias fiquei me questionando porque coisas ruins acontecem com pessoas boas... porque acabamos amando gente que não merece nem sequer uma olhada, ademais a dedicação de um coração sincero...
E mais, vejo tantos que começam e terminam relacionamentos com a facilidade de quem esfrega os olhos quando atravessa a fumaça; enquanto outros, meu Deus, para começar ao menos uma paquera, precisam da mesma habilidade e destreza de Hércules quando desempenhou suas 12 tarefas... Ah! sem falar numa sorte tão grande, mas tão grande, que pode ser comparada a de quem encontra uma orquídea azul!
Bom, não sou expert em relacionamentos, longe disso, e menos ainda adepta do laboratório sentimental que muitos estão habituados ou habituando-se a fazer, enquanto procuram um novo amor; mas, penso que o amor, aquele verdadeiro, escolhe as pessoas e não o contrário.
Hoje, penso que alguns vivem paixões – no sentido carnal da palavra -, outros vivem relacionamentos intensos que até são duradouros e podem virar casamentos, porém, poucos, contados, vivem aquilo que pode se chamar de AMOR.
Nesse meio tempo, alguns – querendo ser sorteados – ficam usando um milhão de estratégias para atrair o desejado cupido; esse, de longe verifica sua lista de alvos e passa longe daquele que não está contido nos seus escritos.
Já vi gente fuçando orkut para aprender o máximo do escolhido pretendente, a fim de na primeira oportunidade compartilhar “sinceramente” dos mesmos gostos, livros, filmes, comidas e esportes que o referido objeto do desejo. Já vi também pessoas que se disfarçam – peruca e tudo – para efetuar uma diligência e descobrir quais os lugares que têm de freqüentar e conhecer para ter uma chance. Já vi tanta movimentação esquisita que até Deus duvida... ou, pelo menos, fica abasbacado com a criatividade.
Afinal, onde e como convencer esse maldito cupido de desviar uma flechinha na direção daqueles que carecem de uma oportunidade ? Sei não... sei não...
Como a saída ainda não foi encontrada, começa o desespero; dia de festa, ida ao shopping, a um aniversário ou qualquer outro evento, social ou não, e pegue produção! Aff... é muito gasto... e pode ser homem ou mulher, viu? Porque não venha me dizer que só as mulheres se embelezam para sair que isso é a mais pura mentira; e isso tudo, na esperança de, um dia, estar bem no meio do caminho quando a flechinha for passando...
Bom, mas, infelizmente, tenho percebido que nada disso adianta muito. E o pior, quanto mais se faz esforço a coisa vai piorando, parece que o maldito ser mitológico fica com raiva daqueles que possuem olhar pidão!
E então, o que fazer? Sei não... mas, parece que nada. Aliás, precisa salientar que esse nada tem que ser de coração, de verdade mesmo... se for um nada tentando driblar o soldadinho do amor, piora tudo! Tem que esquecer do assunto, ficar de bobeira, não pensar mesmo, nem ligar – sem fingimento- só aí, pode ser que – se seu nome estiver na lista – você seja contemplado.
E mais, tem que ser contemplado e perceber que está sendo, viu? Sim, porque tem umas figurinhas aí, que já estão mais furados que peneira de tanto levar pinicada e não sentem nada... pensam que foi um mosquito que o atingiu e inventam mil desculpas para não agarrar o tal do amor.
Agora, vejam bem que coisa injusta, enquanto uns morrem de estar atentos e pulular tentando chamar a atenção do tal anjinho, outros esnobam dele e simplesmente desprezam seu serviço. Sei não, acho isso errado!
Acho mesmo é que devia ter fila de inscrição. Explico. Aqueles que estivessem interessados no quesito amor, deveriam escrever – via orações ou algo do gênero – para o destinatário responsável, a fim de terem sua solicitação atendida. Aqueles que não se importassem muito com isso, e quisessem outros elementos de vida, pegariam outra fila e pronto! Estaria resolvido o assunto e ninguém se sentiria desprestigiado ou desatendido; como também não veríamos pessoas que tem o amor aos seus pés, o desprezarem com a mesma facilidade de quem joga fora a caixinha de cotonetes que acabou.
Sei não... será que esse cupidinho poderia rever essa metodologia de escolha?
Com o intuito de ajudar, solicito que aqueles que puderem dizer o endereço de tal servidor dos céus me comuniquem, acho que irei propor a ele uma oficina de reciclagem.
PORTO, Carolina.
sábado, 27 de dezembro de 2008
PORTO, Carolina
Como um blog tem o fito de aproximar um público desconhecido para uma realidade desconhecida, decidi compartilhar com vocês a existência de alguns personagens que de um modo ou de outro interagem comigo. A estreante será uma moça chamada Carolina Porto. Ela é uma daquelas pessoas diferentes, aparentemente alternativas, imprevisíveis. Tem um raciocínio rápido, olhos grandes, gesticula tanto quanto um italiano, adora falar sobre coisas 'densas' - conforme ela mesmo diz - sempre inclina a cabeça quando sorrir e viaja quando dá vontade (passou seis anos para concluir a faculdade de oito semestres por conta disso).
Carolina ou CP (como eu a chamo) tem umas abstrações muito interessantes e que aqui, acolá vão aparecer por aqui. De início, para entender o abaixo descrito é importante que você leia uma postagem chamada “A normalidade da loucura”. Continuando... hoje vocês vão saber como nos conhecemos. Abaixo, nossa nova amiga descreve minuciosamente esse dia ímpar.
PORTO, Carolina.
Passados dias turbulentos, resolvi tirar um mês sabático.
PORTO, Carolina.
Passados dias turbulentos, resolvi tirar um mês sabático.
Tive a brilhante idéia de viajar pelo sertão do nordeste. Aí, logo se pensa – essa moça deve estar pagando penitência – bom, foi quase isso. É que dizem que depois da tempestade vem a bonança; então, quis dar uma ajudinha ao destino e marcar esse divisor de águas. Resolvi fazer algo diferente, ir a lugares pouco comuns para ver se os pensamentos clareavam, se via ou conhecia coisas e pessoas interessantes. E não é que aconteceu isso mesmo....
Do alto dos meus trinta anos – acho isso o máximo – com a cabeça farta de toda álgebra linear que a minha faculdade de engenharia mecatrônica permite, resolvi dar um tempo. Aliás, um adendo, me acho paradoxal.... como uma pessoa que tem como cotidiano lidar com análise de dinâmica linear, geometria analítica, cinemática e etc. pode gostar de música clássica, Claude Monet, Pablo Neruda e sorvete de menta? Estranho... mas, o ser humano é estranho.
Bom, é preciso me apresentar. O nome vocês já sabem, a idade também já disse. Nasci em Porto Alegre mas, não passei o tempo inteiro lá. Sempre quis ver o mundo, por dentro e por fora, caso contrário não tem graça. Viajei um pouco – de verdade e pelos livros também -, aliás, a leitura é uma das minhas paixões. Mas, a maior delas é pensar nos sentimentos, ô coisinha difícil de entender... prefiro cálculo avançado.
Falemos da viagem. Então, estou eu meio a uma madrugada, parada em um terminal rodoviário esperando meu transporte para a próxima cidade sertaneja do roteiro quando, de longe, avisto uma cena estranha. Um rapaz tentando ler e sendo interrompido por um cara meio “esquisito” falando em tom bem alto. O pobre leitor tinha feição fechada, olhos de surpresa e parecia muito incomodado com a abordagem do outro mas, tentava ser minimamente educado. Tenho certeza que a dupla não percebia que estava sendo observada de longe.
A conversa pareceu breve, mas, eu, do alto de uma curiosidade que me é peculiar, fiz um esforço colossal para ouvi-la. Porém, sem sucesso. Vi apenas quando o indivíduo perturbador foi embora praguejando. Nesse momento, a dita curiosidade corroía meu cérebro e já estava tomando meus ossos e eu, nada de coragem para me aproximar do moço e perguntar do que se tratava o diálogo.
O tempo passava, e a sensação só aumentava dentro de mim... Felizmente, quando estava a ponto de ter uma síncope, o ônibus que eu aguardava estacionou na plataforma do terminal. Levantei, frustrada, e me dirigi a ele. Vi então as preces de uma pobre criatura abelhuda começarem a ser respondidas; não era que a vítima do sujeito perguntador se dirigia ao mesmo ônibus que eu... Fiquei animada!
Uma vez acomodada na poltrona 34 (do lado da janela) e, qual foi minha surpresa, quando o abordado sentou-se ao meu lado. Pensei: “Devia ter feito faculdade de jornalismo...” . O ônibus deu partida e o moço continuava lendo concentrado, enquanto eu me contorcia – ainda mais - de curiosidade. Foi quando de súbito, descontrolada e num ato de loucura, perguntei: “Desculpa... mas, não pude deixar de perceber... sobre o que você e aquele senhor esquisito conversavam?” O pobre moço, mais uma vez atormentado por outro ser inconveniente, me olhou com ar de poucos amigos, fechou o livro com força, e então foi aí que tudo começou...
Valeu a pena?
Todos morreremos e provavelmente essa seja a única certeza – mesmo diante de uma eterna fuga do tema - que habita nossas almas. Não é à toa que no idioma castellano o termo certeza somente é empregado para a morte, enquanto seguro aplica-se às outras convicções. Porém, o problema não é exatamente a morte em si, mas o estado psicológico do defunto.
Não. O que será lido daqui por diante não são memórias póstumas de nenhum indivíduo específico, muito menos se trata de uma abordagem trágica da vida. Simplesmente como ela é, como já preconizava Nelson Rodrigues.
Não. O que será lido daqui por diante não são memórias póstumas de nenhum indivíduo específico, muito menos se trata de uma abordagem trágica da vida. Simplesmente como ela é, como já preconizava Nelson Rodrigues.
Que o homem nasceu para morrer é fato inconteste. Aquela aulinha, com a professora da terceira série, de que os animais nascem, crescem, reproduzem e morrem também se aplica, ainda que a contragosto, a nós – aparentemente imbatíveis. A raiz do grande desespero do encerramento da vida vai muito mais além da falta que iremos fazer.
Explica-se. Suponha ter encerrado sua participação no planeta Terra. No primeiro mês, todos vão chorar sua partida; a impressão que seus parentes e amigos terão é de um vazio inexplicável e tristeza quase insuportável e que o mundo desabou. Ao final do primeiro ano, em nome do lema “a vida continua”, você já será uma saudade semi-distante. Dois, três anos depois, sua existência se resumirá a uma boa lembrança. Uma década mais tarde, seu nome surgirá de maneira acidental numa conversa de bar e alguns podem até ter esquecido em que ano que você se foi. Esse é mais ou menos o roteiro seguido na maioria dos casos.
Muito embora encarar a realidade desta forma ser um tanto macabro, o que mais assusta, e por que não dizer atormenta, seu coração é falecer sem deixar marcas de influência no mundo vivente.
Viver egoisticamente é até confortável, mas tem um efeito psicoemocional futuro irreparável. Pare para pensar. Você nasceu num bom lar, com problemas (assim como todos os outros), teve brinquedos – tenha sido eles da Estrela ou artesanais - , estudou, trabalhou, namorou, casou, teve filhos, alguns amigos, fins de semana inesquecíveis, meia dúzia de sonhos realizados, seu time foi pentacampeão, seus filhos fizeram ou farão uma boa faculdade, você foi promovido no seu trabalho, e por aí vai. Tudo isso temperado com uma pitada de erros aqui, umas frustrações acolá, tragédias no meio do caminho.
Enfim, você terá vivido. Mas, e aí? Que diferença e legado você deixou nesse mundo? Qual o saldo das eternas diversões, do jovem indestrutível herói, de tantos títulos, dinheiro, carisma, talento? Quantas pessoas poderão dizer que você foi capaz de mostrá-la uma nova forma de viver?
Os dias se passaram e você viveu exclusivamente para si mesmo, ou, ainda sendo generoso, para um grupo seleto de pessoas. A zona de conforto sempre seduziu suas atitudes. Você até se emocionou com as notícias do telejornal de fomes, enchentes, miséria, ignorância, mas o âncora diariamente dizia boa noite e com ele você também se despedia das indignações, fazendo um download de paz interior e dormia como se tudo fosse ligado no modo de repetição.
Toda a sua existência girou em torno de uma rotação egocêntrica de realizações. Obviamente, no Natal, no dia das crianças você sempre aderiu às campanhas filantrópicas, distribuiu alguns cumprimentos e felicitações, assim como um canceroso ingere morfina para aliviar a dor constante. Um paliativo suficiente para adormecer a sensibilidade pelo resto do ano.
Saindo de uma perspectiva mais generalista, basta lembrar-se daquele jovem que você vê todos os dias vendendo balas no ponto de ônibus, se compadece, mas assume para si que ele é um problema do governo. E nesse círculo de transferência de culpas e remorsos corrosivos você vai dormindo, acordando e vivendo, deixando sempre para amanha o dia da sua libertação em que será menos você para ser mais o outro.
E nesse ritmo unidirecional, o sino do tempo badala e cobra os dias da sua vida. Contra isso não há lei. Todas as manhãs significam um dia a mais e um a menos, conforme o entendimento de que se morre gradativamente. Um dia poder olhar para trás e ver que a cada minuto de morte foi possível dar vida e alguém é ter a segurança de que valeu a pena viver.
LUCENA FILHO
LUCENA FILHO
A normalidade da loucura
“Se você vier pro que der e vier comigo, eu lhe prometo o sol, se o hoje o sol sair” é o início de uma das poucas canções que tenho ouvido nos últimos dias – Dia Branco, por Geraldo Azevedo. Por certo, a melodia suave, encantadora, transmissora de paz, combinada com uma letra desafiadora origina tão bela composição. A sensação é de ouvir uma daquelas cantigas de ninar, onde o choro desesperado e a angústia que entorpece são abrandados por palavras ritmadas embaladas por uma leve esperança. Mas, muito embora mereça uma divagação própria, Dia Branco não é o único feito da quinzena em curso.
Também restaram energias para minha cinefilia, ao toque de um filme de Almodóvar (Tudo sobre minha mãe), alguns nacionais (Abril despedaçado, Cinema, urubus e aspirina), uma película colombiana, algumas crônicas do mestre Veríssimo, um poema clichê chamado ‘Metade’ – recitado por Oswaldo Montenegro - um zilhão de notificações e mandados judiciais a cumprir e conversas agradáveis com amigas próximas. Ah! E um louco! Isso mesmo. Um insano. Todavia, não um desses ordinários. Um daqueles bem intensos, ligado no 3. E o dito cujo é a razão principal de gastar uns minutinhos pensando essa semana.
Esclareço. Como é do conhecimento de todos, há aproximadamente um ano e meio sou um peregrino. Percorrendo as estradas potiguares, paraibanas e pernambucanas, tornei-me um graduado em viagens interestaduais, com especialização em terminais rodoviários.
De fato, estou perito quanto aos efeitos de comer pelas madrugadas, utilizar banheiros públicos, conhecer as melhores rotas, quilometragem, suportar companhias inconvenientes na poltrona ao lado, etc. Enfim, eu defendo que terminais são como shopping centers, resguardadas as devidas proporções, obviamente. Digo isso porque nesses locais há uma dinâmica própria de vida, pessoas que a qualquer hora do dia ou da noite estarão lá, uma espécie de comunidade própria, com inclusive hábitos peculiares. Ah! E outra coisa. As criaturas que lá vivem parecem adorar tamanha identificação com seus nichos nada ecológicos. Mesmo quando não há nada a se fazer, ficam zanzando para lá e para cá, resmungando, contando os causos das viagens, admirando os artesanatos das lojinhas de conveniência. Uma beleza!
Macacos me mordam! Quase esqueci do louco. Pois bem. Estava lá eu num desses terminais lendo o prefácio da minha última aquisição literária, muito bem acomodado numa Giroflex com as pernas cruzadas. Ops! Desculpem, tenho essas manias de sonhar acordado... Continuando... Sentado estava acentuando a escoliose que me persegue quando fui interpelado por um rapaz:
- O senhor quer uma oração?
- Quem? Eu?
- Sim, o senhor. Quer?
- Eu não!
- Então o senhor ora por mim?
Por um momento toda minha ética cristã quis aflorar, mas imediatamente tratei de lhe despedir. Ora, como alguém que se oferece tão solicitamente para orar por mim, no momento seguinte necessita urgentemente de uma prece? Até aí tudo bem.
Porém, não satisfeito aquele cristão continuou:
- Então vamos orar por George Bush?
Bem que o Saddam das Américas precisa de oração, especialmente no que tange à misericórdia divina, mas insisti:
- Não, meu amigo. São quatro da manhã e não quero orar por Bush.
- Certo. E que tal a família real da Inglaterra?
Agora “lascou” mesmo, pensei, já fechando o livro asperamente. Orar pela família real inglesa? Pedir o que? Agradecer? Clamar por sapiência para o príncipe Charles e saúde para a Rainha Elizabeth? Já estava quase cedendo àquele intercessor, quando minha indiferença carnal, ou melhor, bom senso falou mais alto e retruquei:
- Meu amigo, eu não vou orar por ninguém, entendeu?
- Tá bem, mas seu tivesse um tênis desse seu eu tava feito.
- Hein?!
E lá se foi aquela figura pitoresca desaparecendo no meio da noite, digo, quase dia, gritando e praguejando e andando em círculos. Ótimo. Passei quase cinco minutos dialogando com um doente mental apaixonado por chefes de estado e querendo distribuir orações por aí, com o fim de um dia comprar um pisante bonito. É mais ou menos parecido com a historinha do moleque que pediu uma bicicleta ao pai, e este respondeu que não daria, pois no quarto do filho já tinha uma janela e biscoitos de chocolate. Conexão zero!
Depois de algum tempo, fiquei pensando naquela atitude e reações. O intrigante é a relação entre normalidade e ação. Ainda me recordo que esse foi o tema principal do primeiro texto escrito espontaneamente por esse que vos fala em meados de 2005. Desconheço as razões pelas quais me sinto tão atraído pela análise da sanidade, especialmente quando os estudiosos no assunto afirmam que a linha entre o bom e o avariado é tênue. Isto implica no fato de que todos convivem com um eu potencialmente doente diariamente, motivo este que apavora milhares de pessoas com uma síndrome cujo maior sintoma é o medo de enlouquecer.
Então, retornando... Quando parei para pensar percebi que ser louco é sinal de extrema coragem. Não que alguém decida perder as estribeiras do equilíbrio, entretanto, um ser afetado mentalmente desenvolve características que todos os normais apreciam, mas muitos se acanham em aplicá-las, como a ousadia, coragem, sinceridade, destemor, indiferença quanto às inúmeras convenções sociais1. Por exemplo, invadir o ambiente de privacidade do próximo e importuná-lo a ponto de tentar convencê-lo a orar por Bush numa rodoviária às quatro da manhã é típico de pessoas audaciosas. E quem são os audaciosos? Os empreendedores, os humoristas e os oficiais de justiça do Rio de Janeiro!
No fim das contas, o dito louco tem aspectos até louváveis de gente considerada bem sucedida. O máximo que o ser orador poderia conseguir de mim era um ‘não’. E conseguiu. Nesse ponto, pergunta-se: e se no meu lugar fosse um sujeito mais sensível, polido, sentimental? Teria doado o par de tênis sem muito conflito emocional e aí a ‘loucura’ renderia bons frutos, passando de comportamento duvidável a criatividade brilhante. Aí está o grande mérito dos dementes: arriscar sem limites, mesmo que a impossibilidade dos resultados seja avantajada, tal qual prometer um sol a alguém se este sair.
Já os normais, por sua vez, se deixam abater pela enorme quantidade de regras de comportamento e se privam de falar, expor idéias, provocar discussões e até mesmo arriscar uma oportunidade quiçá única em suas vidas. Preferem ser reconhecidos como equilibrados e sãos a arriscarem no desconhecido e terem pelo menos um pouco de emoção e por que não resultados exitosos?
E deve ser por isso o ditado de médico e louco todo mundo tem um pouco. Aqueles que não têm, deveriam ter. Então, caro leitor, como um bom aplicador das reflexões, preciso ser exemplo: posso orar por você???
LUCENA FILHO
LUCENA FILHO
1Quando ventilo tais convenções é porque, desde os tempos remotos, os paradigmas de normalidade sempre subentendem outros paradoxais. Nas Escrituras mesmo está lá que a sabedoria divina é loucura aos olhos dos homens.
Santa Caos
O bom velhinho, após de quatro sofridos anos, decidiu retornar a Bagdá, capital do Iraque para atender à comunidade de 550 mil cristãos daquele pacífico país. Segundo fontes não oficiais, a ausência do velhinho pagão justificou-se por fatos inusitados como uma ordem de, Saddam Hussein para sacrificar as renas e fazer um grande churrasco para a Al-Qaeda e a confusão feita pelo vovô ao confundir uma chaminé com um lançador de mísseis anti-aéreos. Voltou direto para o Pólo Norte pelos ares. Detalhe: no último ano o personagem natalino teve que desfilar nas ruas de Abu Nawas ao som do jingle “somos todos Iraquianos”. Será que alguém lá foi convencido disso? Santa Caos!
Domicianus Dominorum
Quando laborei lá pelas bandas do Sertão Central Pernambucano, carinhosamente chamado de Polígono da Maconha, conheci um rapazote. E ele era isso. Um rapazote. Puro e seco. No sentido mais profundo e também superficial da palavra. Até hoje procuro adjetivos apropriados para o dito cujo, mas as descrições fogem dele como o trancoso corre da cruz. Certo dia, quando o sol fervia no alto do meio dia, sentou-se o mencionado ao meu lado e, como um Forrest Gump das brenhas, começou a debulhar sua história. Por isso, para manter o máximo de fidelidade possível, reservo-me ao direito de apenas contar os fatos exatamente como sucedidos, deixando as conclusões para quem ler.
O nome da criatura era Domiciano Silva e Silva. Filho de Dolores Silva e Alciano Silva. E como no dia do casamento, o Padre disse ‘e serão ambos uma só carne’, nada mais justo do que juntar os nomes dos pais para chamar a primeira e única cria.
Dodó – alcunha afetiva outorgado pelos pais – até os vinte anos era o típico filho de camponês. Acomodado com tudo e todos e detentor de um estilo de vida bem previsível, Domiciano acordava cedinho, ordenhava as vacas, alimentava os ‘pôico’, como mesmo dizia ele, ajudava o pai na plantação, vendia leite no fim da tarde e fazia pão à noite. Diariamente as atividades se repetiam, sem nenhuma mudança significante. Até que um dia... Ah! Até que um dia a 'besta fera' chegou dentro de casa: a televisão.
Agonia e rebuliço mental maior não podiam esperar. O fato se deu num sábado, depois da feira, quando o novo telespectador chegou em casa com uma Cineral preta. Um filhote de incinerar com funeral.
- Paaiii, olhe só o que eu trouxe...
- Oxe, oxe, oxe. Que djabo é isso, menino?
- Homiiii, é uma televisão. Troquei ela em Fafá e voltei cinqüenta real – a vaca de estimação com tetas tamanho GGG e que nem sonhava Dodó a coincidência com a realidade.
- É o que? Trocou sua vaca por essa tranqueira aí? Se abestalhou foi?
- Eu não! A gente carece de um divertimento, né, mãe?, disse Dodó olhando desconfiado.
- E pra que tu quer uma televisão? Nem ler tu sabe, vociferou o pai.
- Pai, o senhor conversa muito miolo de pote. Deixei de coisa! Pra fazer ela ligar nem precisa saber ler. É só ver as pessoa tudo passando e as história delas se enrolando. Até rimou!
Pois bem. Foi a televisão chegando e a paz saindo. A quadradinha mexeu e remexeu com os neurônios do rapaz. Parecia um mundo recém-descoberto. Cada detalhe deveria ser absorvido e observado, sem perda de tempo. A partir daquele dia, talvez fosse apropriado classificar Domiciano como um rapaz, digamos... diferenciado para a região e circunstâncias de criação. A bendita da caixa preta que mostrava os quatro cantos do mundo de fora pra dentro e vice-versa alterou toda a rotina da família.
Falando em região, é merecido apontar que o protagonista da história e família nasceu e cresceu num sítio chamado Cuvico, distante umas dez léguas da cidade mais próxima, Bodó, que por sua vez ficava a todos os quilômetros da capital. Lá moravam umas trinta pessoas, dentre elas Januário, amigo e confidente de Dodó, tão matuto e isolado do mundo quanto este e que nem sonhava com o nível de conversa por vir nos próximos meses.
Voltando... De vigoroso e incansável trabalhador, Domiciano transmutou-se numa dondoca de barba, abusada e cheia de direitos. Só queria saber de apertar o Power e navegar nas imagens sedutoras e coloridas da telinha. Nada escapava. De desenho animado à sessão da tarde, passando pelas propagandas da Polishop e novelas mexicanas tudo era digerido sem critério. E nesse ritmo frenético, a mente virgem do sertanejo foi pouco a pouco colonizada sem choro nem vela, recebendo mensagem boa e também muita mazela.
As tarefas foram afetadas. Trabalho braçal até era feito, mas somente com muita insistência e lamúria do pai. Antes de qualquer atividade, o rapaz colocava uma bota velha e fazia alongamentos, corridas, exercícios. Ordenhar as vacas somente depois de lavar bem as mãos com sabonete Dove para não transmitir bactérias. Capinar? Nunca mais! Poderia ser acometido de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Alimentar e comer carne de porco? Pior ainda. Um dos documentários vistos por Domiciano afirmara que todos aqueles pertencentes à família Silva eram descendentes dos Barões do Café e estes, por sua vez, tinham ascendência judaica. E como todo judeu que se preze, carne suína era proibida! Fazer o próprio pão? Somente com Farinha Dona Benta. A aposta no jogo do bicho usual às sextas-feiras estava com os dias contados. Dali em diante somente telesena e lance mínimo nos programas de fofoca da tarde.
Dona Dolores só faltou endoidar com as novas regras de Dodó. Isso sem falar que a dispensa parecia mais um workshop de multinacionais de detergentes, biscoitos, cremes, etc. O dinheiro da aposentadoria do casal e os pequenos lucros desapareciam como relâmpagos no horizonte na hora de ir ao mercadinho da cidade. O filho do casal só queria tudo do bom e do melhor, conforme diziam as propagandas da televisão.
É certo que a nova aquisição tinha lá suas vantagens. Domiciano passou a falar mais corretamente, tudo bem que de vez em quando aqui acolá surgiam uns deslizes linguísticos, como um dia em que chegou pra mãe e disse que “a nível de conhecimento, ele iria estar querendo entrar numa escola”. Mas ele aprendeu isso lá na tevê com um filme sobre uma operadora de telemarquetingue. Também ocorria de misturar o vocabulário mais polido com o caipirês do berço. Para assimilar melhor os novos conhecimentos, Domiciano começou a caningar o pai:
- Pai, quero aprender a ler e escrever!
- Agora to aprumado, resmungou Alciano. Livro num enche bucho de ninguém. Pra quê tu inventou isso agora?
- Pra ficar mais sabido, oras. Quero poder ler as frases tudo que passa na televisão e entender um programa novo aí que tem dia de sábado.
- E que pograma é esse, Dodó?, perguntou a mãe.
- Açuletrano.
Já sem agüentar tantas perguntas e modismos dentro de casa (não que questionar fosse mau, mas quando se tratava de ter pai e mãe analfabetos tudo ficava mais complicado), o casal acatou o pedido do filho. E foi aí que Domiciano foi pra escola e a situação se agravou...
LUCENA FILHO
LUCENA FILHO
Cinco minutos
Se está difícil sobreviver, imagine viver – dificílimo. Estar vivo e são chega até a ser um ato de heroísmo diante de dias tão conturbados e estranhos, como diria Rodrigo Levino. De duas semanas para cá vi temporais ceifando famílias inteiras, aluno ameaçando professora, reclamado em vias de esfaquear magistrado, pessoas admitindo seu cansaço e impotência diante de tantas circunstâncias e por aí vai. A humanidade emite sinais de agonia e dor.
Manter-se em pé mesmo enfrentando as mais variadas adversidades demanda forças celestiais. As pedras surgem aos montes e algumas delas, independente da oposição que encontram, insistem em acomodar-se se não no caminho, dentro do sapato. Porém, há momentos que as resistências queimam, as energias cessam e nosso mundo aparenta desmoronar, transformando tudo em pó e angústia. A premissa pode ser aplicada a toda e qualquer área de sua vida, desde a dificuldade de suportar o hematófago noticiário, até aquele instante particularmente considerado quando, sem motivos aparentemente plausíveis, sucumbimos ao resultado de meses, anos de angústia, inconformismo e mutilação da alma.
Fugir das intempéries é inútil, senão mais cansativo ainda. Explico. Para fugir, é necessário empreender esforço, gastar parte da vida, investir tempo e disposição. Se levado em conta a realidade a velocidade da dinâmica social, percebe-se facilmente o quão rápido tudo pode acontecer e desacontecer sem que haja tempo para uma reação apropriada. Ou seja, é necessário atravessar o rio das dores com o cuidado de não pisar duas vezes no mesmo lugar, como já comentava o historiador grego Heródoto.
É na qualidade da travessia onde está a cura. Caminhar é preciso. Arrebentar-se, sangrar, prostrar-se e reconhecer que por trás de um ser deveras inteligente, tecnológico e que fracassadamente tenta sempre estar no controle de tudo há uma figura cansada e necessitada de descanso espiritual é imprescindível. Portanto, arregimentar estímulos e ir adiante é o mais sensato. Inegável a aspereza e estafa do trilhar fluviométrico. Alguns desistem, entregam-se e niilisticamente subscrevem o termo de vencidos, subtraindo de si a oportunidade de tentarem uma vez mais. Preferem um descanso desconhecido ao dom de viver.
Absorver os efeitos cicatrizantes da dor é parte do tratamento. Há uma película chamada Tudo acontece em Elizabeth Town e dela faço uma paráfrase “caia, curta os cinco minutos do seu sofrimento, levante-se e caminhe”. Infelizmente, há uma convenção velada de seres humanos imbatíveis, os quais não podem dar-se ao prazer de aprender com suas perfurações sentimentais. Sempre há alguém dizendo "não chore", "você tem que ser forte", "saia, divirta-se, seu mal é depressão" (uns com razão, outros por simples idiotice – no conceito psicológico da palavra). De paliativos a sociedade está cheia. Dia a dia empanturram-se os humanos com seus anestésicos sociais e em vão o fazem.
Ruminar a dificuldade é ser ensinado e ter ciência da falibilidade individual. O reconhecimento de uma condição de ser vulnerável e da realidade de estarmos no mesmo nível dos nossos desertos implica aceitar que é possível vencer as batalhas contra eles, mas também ser derrotados, com uma esperança de levantarmos posteriormente.
Quando se aproveita em detalhes tudo aquilo capaz de ser proporcionado pelos ditos cinco minutos, os quais podem durar semanas, meses, anos ou apenas trinta segundos, ergue-se sempre um indivíduo mais nutrido e emocionalmente sagaz para as próximas guerras. E, nesse caso, é levantar sabendo que pode-se arrear novamente, entretanto com a certeza de que enquanto tudo não cessar, não cessaremos.
LUCENA FILHO
LUCENA FILHO
Bem-vindos
Sejam bem-vindos ao meu espaço que não é my space. Do alto do meu consagrado anonimato, inauguro hoje o blog “Expressões e Impressões” - um espaço democrático para discussão de temas variados (desde conflitos internos da personalidade humana até a desnecessidade da contratação de Ronaldo pelo timão). Publicarei alguns escritos já enviados para os amigos e outros inéditos surgirão. À medida do possível sempre haverá uma imagem e música associada às postagens, o que justifica o fato de nossas percepções serem provenientes do que lemos, vemos e ouvimos. Espero que gostem, comentem, critiquem, sugiram, repassem e aproveitem. Alea Jacta Est!
LUCENA FILHO
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