Humberto: E aí, Tibério, fazendo o que de bom? Trabalhando?
Tibério: Que conversa! Trabalhar agora é coisa do passado. Sou dono do próprio negócio.
Humberto: E o que você produz?
Tibério: Não produzo nada. Só gero riqueza e vendo...
Humberto: Vende o quê?
Tibério: Sonhos e ilusões. Ambos no atacado.
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sábado, 2 de março de 2013
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Tibério, a liberdade do cachorro e o golpe da ligação
Essa semana recebi uma ligação desta figura imprevisível, folgada e de um jeito malandro que margeia o estelionato: Tibério. Da última vez que o sujeito me ligou, pelas raias da madrugada, acabei tendo que custear a chamada e ainda ter que suportar suas perguntas desconcertantes.
Estava eu concentradíssimo no parto do meu filho (leia-se “escrevendo a dissertação do meu Mestrado em Direito”) quando vejo “O mala” chamando (Gravei o nome dele na agenda desta forma mesmo). Fiquei logo desconfiado, mas atendi. E lá fomos nós...
T: Alô, alô, alô, Teresinha?!
LF: Que Teresinha, Tibério. Sai dessa! Que queres, homem?
T: Alô, alô, alô?
LF: Tá me ouvindo?
T: ...cor...tan...do...
LF: Eu não. Só saio no prejuízo nessa história.
T: Deve ser problema na li...nha... tente ligar para ver se...fun...cio...na...
LF: Certo, mas não posso demorar.
T: Ok, ok.
(...)
LF: Alô
T: Ahhh! Agora sim! A ligação tá mais limpa que carro de coleção! Ei, tenho uma história pra te contar: o cachorro estava solto, Lucena!
LF: Hein? Que cachorro? Do que você está falando?
T: Rapaz, tenho um vizinho que cria um cachorro - daqueles vira-latas bem atrevidos - sempre preso. O danado fica na área da casa e não pode me ver que o latido é grande. Eu, como não valho o que o gato enterra, fico provocando o bicho, fazendo zuada, simulando que vou atacá-lo, latindo também e outras muganguitas más. Para você ter ideia, ele é o único cachorro rouco que conheço de tanto que se enfurece ao me ver.
LF: Sim... e...?
T: Essa semana lá vinha eu a pé da aula de Tópicos Especiais de Política, tranquilo, cantando a nova música do Restart (Tá, isso foi uma brincadeira sem graça!) quando de repente o perro, que estava bem escondidinho, veio com gosto de gás e sangue em minha direção. Não sabia se corria, chorava, subia numa árvore próxima, pedia perdão ao animal ou a Jesus Cristo pelas malvadezas acumuladas, gritava, me atracava com ele. Enfim...
LF: E aí, o que você fez?
T: Fiquei bem paradinho, feito bicho preguiça com câimbra.
LF: Deu certo?
T: Deu nada? Quando vi que ele não engoliu meu teatrinho fugi com a mesma rapidez que o Diabo foge da cruz. Por sorte, o portão lá de casa estava aberto e deu tempo ele não me alcançar.
LF: Sei. E você me ligou só para me dizer isso?
T: Não. Liguei para dizer duas coisas. A primeira é que um dia o cachorro pode estar solto (interprete como quiser). E também para dizer que agora consigo imitar direitinho uma li...ga...ção... com o si..nal.. fra...co.
(...)
Lucena Filho
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Tibério, o aquário e o lenço
Tibério: Olhar cansado, Lucena. Incomoda-te a luz?
LF: Não. Digo, talvez seja a escuridão a razão de tanto enfado.
Tibério: E o que se passa?
LF: Entediado, amigo. Sentindo-me fora d’água nesse aquário enorme chamado humanidade.
Tibério: O problema é que nessa situação falta oxigênio.
LF: Verdade. E como você trata sua asfixia?
Tibério: Não trato. Morro diariamente. E o pior de tudo é ressuscitar na mesma proporção.
LF: E quanto ao coração, se ele chora, que fazes?
Tibério: Ofereço-lhe um lenço. Nada mais.
(...)
sábado, 13 de novembro de 2010
Classificadas
Sexta-feira, após uma semana cansativa e um lanche rápido no Pastel Petrópolis:
- Tibério, qual o tipo de mulher ideal para você?
- Simples, Lucena. Apenas procuro uma que:
1) Não seja vítima da cultura loirificante institucionalizada pós-moderna
2) Consiga expandir os pensamentos além da Carmen Steffens, Santa Lolla, Dolce Gabbana e a nova coleção da Risqué.
3) Ao menos quando ouvir a afirmação “Passei em frente à Loja Maçônica ontem” não pergunte “O que vende lá?” e não pense que quimioterapia é o mais novo curso da UFRN.
4) Entenda (ou ao menos tente) a abissal distinção entre homens e mulheres: somos pragmáticos e detestamos discutir a relação.
5) Fique de TPM apenas uma semana por mês e não te deixe preocupado em aliar o temperamento explosivo dela com a tesoura mais próxima.
6) Não tenha ciúmes de futebol, amigos e até mesmo de um poste.
7) Quando perguntada “Como você se vê daqui a cinco anos?” não responda “Com 80 cm de cintura, 100 de quadril e 70 de perna”.
8) Também não pareça um velocípede dentro de uma meia.
9) Tenha uma mínima noção da natureza de mão dupla dos relacionamentos e de que carências exacerbadas devem ser tratadas com um psicólogo (isso soou estranho), não com você.
10) Não compre apenas cinquenta centavos de saia e entenda a dispensabilidade de mostrar o útero.
11) Não iscreva açim.
12) Evite passar o tempo todo tentando demonstrar que é A DIFERENTE e se encaixa nas outras onze características.
11) Não iscreva açim.
12) Evite passar o tempo todo tentando demonstrar que é A DIFERENTE e se encaixa nas outras onze características.
- É, tá difícil.
- Tá, não. Já li uma reportagem a respeito de estarem criando uma dessas em laboratório.
Bom feriado!
Lucena Filho
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Tibério e a contracultura
O relógio já marcava duas da manhã quando o celular berrou naquele mar de silêncio reinante no quarto.
- Alô
- Oi Lucena. É Tibério. (Quem não o conhece, acessar o link Amigos)
- Quem???
- Tibério, rapaz! Acorde!
- Meu amigo, você passa dois meses sem dar notícias e quando me liga é num momento em que meu cérebro está com funcionamento prejudicado. É bom que o motivo seja razoável.
- Isso você vai me dizer agora. Olha só: estava aqui lendo Mateus 5 a 7 e eu queria que você me explicasse algumas coisas.
Ainda desorientado, acendi a luz e numa sensação de senta que lá vem a história já me preparava psicologicamente pra perder a noite de sono.
- Tá, qual sua dúvida? Seja rápido. Não quero que meu humor descubra que fui acordado por você no meio da noite.
- Lucena, é simplesmente impossível viver o que está escrito aqui. Que tipo de socialismo, niilismo e completo desapego a qualquer tipo de materialismo esse Jesus pregava? Parece até interessante, agradável e perfeito do ponto de vista das relações sociais, mas humanamente inviável.
- Tibério, é o seguinte: o sermão da Montanha contém valores básicos do Cristianismo, isto é, os princípios fundamentais de como as coisas deveriam ser e não de como elas são. Na verdade, há nesse texto algo muito interessante chamado contracultura. Você, mais do que eu, sabe que o movimento contracultural aqui no Brasil surgiu na segunda metade do século XX e tinha como fim contestar o sistema vigente e o estilo de vida posto na época. Porém, quando se trata de Cristianismo (que de religião não tem nada e é definido como estilo de vida), essa postura é muito mais antiga, haja vista ser essência desta fé a orientação contra os valores postos na sociedade. Por exemplo, enquanto o mundo nos diz para sermos os melhores, os mais competitivos, agressivos nas teias profissionais, Jesus de maneira muito sábia disse “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”.
- Sei. Prossiga, Lucena.
- Então... Na medida em que somos orientados a arrefecer e nos tornarmos pessoas insensíveis às dores, aos problemas, superá-los de toda forma e atropelar toda forma de desânimo, Abba diz “Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”. Enquanto a mídia e tudo o mais que aí está nos diz a não levarmos desaforo para casa, a ter sempre uma resposta para tudo e todos e ficar irredutivelmente como suposto vencedor em qualquer discussão, Jesus disse “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”.
- Cara, mas isso é impossível. É psicológica e socialmente insustentável ter uma conduta dessa. Se for assim, daremos espaço para aproveitadores dominarem.
- É aparentemente impossível porque os nossos valores não são coincidentes com os do Reino. Alguns até são, mas a maioria deles destoa. Veja você que a maioria das regras de moralidade e jurídicas tem lastro judaico-cristão. O nosso Código Penal, Civil e disposições básicas da Constituição Federal, por exemplo, são formas modernas e sistemáticas de dizer ao povo o que há 10.000 anos já era tido como verdade. Só para ilustrar: o art. 121 do Código Penal diz “Matar alguém – reclusão de seis a vinte anos”. E o que está escrito lá em Êxodo 20:13? “Não matarás”. Bingo!
- Tudo bem, essa parte eu entendi, mas como eu posso fazer pra viver o que está escrito ali, rapaz?
- É um exercício de policiamento e de substituição de motivações. Um bom termômetro cristão é desconfiar de quase tudo que as pessoas acham como normal, aceitável ou aconselhável. Dada o rumo de destruição que a humanidade está tomando, cada dia terminado percebe-se o eleito como plausível pela modernidade como absurdo. Mas eu devo te advertir, Tibério, que essa vida proposta por Jesus, diferentemente do que se fala por aí, não é uma vida isenta de problemas, angústias, repleta de oba-oba. Pelo contrário. O caminho é estreito e espinhoso. O próprio Jesus disse “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa”. Em outras palavras, meu amigo, não espere ser compreendido, aceito, o legal da turma, que relega a Verdade para não criar atritos. É por isso também que se chama o evangelho da contracultura. Numa compreensão mais ampla é até possível dizer que tal estilo de vida suplanta nosso senso de conforto.
- Sei...
- Também devo te dizer que há também fonte de paz e graça para as dores, entendeu?
- ...
- Tibério? Dormiu?! Tibério!!!
- ...
De repente, recebo uma mensagem “Você gastou dez reais dos seus créditos”. Seu saldo é de R$ 0,00.
Eu não acredito que aquele beleza me ligou a cobrar e eu não ouvi. E lá vamos nós... mais uma noite sem dormir. E sem créditos!
LUCENA FILHO
domingo, 3 de janeiro de 2010
Friendship, amistad
Hoje eu lembrei daquela música de Oswaldo Montenegro chamada A lista. Ela retrata a amizade sob uma perspectiva nostálgica. Pensando nela, pus-me a analisar o ano passado e gostaria de começar 2010 fora do paradigma capitalista-judaico-cristão-ocidental (projetos, planos, falsas promessas de efeito reflexivo, listinha de desejos, etc). Quero dedicar a primeira postagem do ano àqueles que tornam a dor da existência possível de ser aliviada: os amigos.
Em regra, sou intolerante com amizades, especialmente em tempos de tanto interesse, dissimulação e desconfiança. Fico entediado com as pessoas e suas monotonias. Aliado a isto, as relações sociais exalam uma fragilidade semicristalina ao ponto de se ter a impressão que não há cura para o raquitismo das intersubjetividades. Grato sou pelas ressalvas desta realidade.
Em 2009, dediquei um tempo considerável a algumas pessoas que me fizeram muito bem. Verdade que tenho restrições com amizades simplesmente pelo possível bem vindouro, haja vista isso aparentar uma relação de comensalismo barato. Prefiro uma relação do tipo só pelo bem querer.
Pois bem. Decidi permitir que tais pessoas ocupassem espaços importantes, mesmo que de última hora. Por óbvio que não tenho contato diário e próximo com todas elas, mas não significa que não estejam presentes.
Os meus sinceros agradecimentos pela existência e companheirismo (nas suas devidas proporções) de Viviane Valença, Carla Cruz, Helena Vila Nova, Wilson Duarte, Hugo Silveira, Lauro Ericksen, Rafaela Andrade, Carlos Júnior, Ângelo Márcio, Aldrina Cândido, Fernanda Sena, Ilma Cândido, Jesiana Rita, Geórgia Faria, Heyder Lucena, Renatta Flores, Germana Nóbrega, Camila Evelym, Carlos Oliveira, Jéssica Ethne, Eleandro Custódio e Luciana Soares.
Cada um sabe a medida exata de sua representação e podem ter certeza que lhes tenho apreço e consideração. Em homenagem a vocês vou deixar um vídeo da banda islandesa referida na postagem anterior com a música chamada Ára Bátur. Procurem a letra e tradução no Google.
Enjoy it!
Abraços
Lucena Filho
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Tião
Meus raros, o destino tem me reservado amigos próximos e muito diferentes. Já é do conhecimento de todos a existência da romântica Carol, que passou rapidamente pela cidade do sol na quarta-feira e me deu o prazer de desfrutar de sua afável companhia num almoço delicioso; o reflexivo e pirangueiro Tibério com seus flashes de rage against the machine; Domiciano e a revolução televisionada (está fazendo morando numa pensão em 'Récifi', fazendo supletivo e trabalhando numa padaria) e hoje vocês hão de conhecer Tião.
Tião convive comigo ao menos duas vezes por semana e me faz dar boas risadas. Nasceu no Município de Serrinha/RN, o qual dista aproximadamente 60 km da capital, e lá ficou até os trinta anos. Sempre foi homem da roça, de mãos calejadas e trabalho árduo. Estudou até o quarto ano do ensino fundamental e o lugar mais próximo da civilização onde esteve foi na cidade de Parnamirim/RN, região Metropolitana de Natal/RN. Um de seus momentos marcantes foi conhecer o mar, mais especificamente a Praia de Pipa, onde resistiu entrar na água alegando que o dôtor do gfs (PSF) tinha mandado ele evitar coisa sargada pro módi da pressão enterial.
Então, o nosso amigo depois de muito tempo conseguiu um emprego de zelador de uma repartição pública na cidade onde trabalho e sempre que possível desenrolo uma prosa com ele. Tião tem como grande característica querer falar palavras bonitas sem saber. O único problema é que na hora de falar ele esquece como se pronuncia ao certo e num tom de seriedade diz a primeira construção silábica que lhe vem à memória.
Tião convive comigo ao menos duas vezes por semana e me faz dar boas risadas. Nasceu no Município de Serrinha/RN, o qual dista aproximadamente 60 km da capital, e lá ficou até os trinta anos. Sempre foi homem da roça, de mãos calejadas e trabalho árduo. Estudou até o quarto ano do ensino fundamental e o lugar mais próximo da civilização onde esteve foi na cidade de Parnamirim/RN, região Metropolitana de Natal/RN. Um de seus momentos marcantes foi conhecer o mar, mais especificamente a Praia de Pipa, onde resistiu entrar na água alegando que o dôtor do gfs (PSF) tinha mandado ele evitar coisa sargada pro módi da pressão enterial.
Então, o nosso amigo depois de muito tempo conseguiu um emprego de zelador de uma repartição pública na cidade onde trabalho e sempre que possível desenrolo uma prosa com ele. Tião tem como grande característica querer falar palavras bonitas sem saber. O único problema é que na hora de falar ele esquece como se pronuncia ao certo e num tom de seriedade diz a primeira construção silábica que lhe vem à memória.
Ah! Quase esquecia de mencionar o tendão de Aquiles deste senhor: as mulheres. O pobre coitado tem 6 filhos de 3 esposas, mas já garantiu a ordem de mandar “cortar a tripa da mulher pra ela não ficar mais carregada" (fazer ligação para não ficar mais grávida). Essa semana, ao chegar no trabalho, encontrei a figura:
L: Bom dia, Tião! Já tomou café?
T: Nada. Tou com um rombo no estombo (estômago). Eu vi um pão impebrau (integral) curuvita (Pão Plus Vita) ali, mas não gosto.
L: Oxe, rapaz. Esse pão é muito saudável, muito recomendado pelos médicos e nutricionistas.
T: Rim (ruim) demais. Tem gosto de crete (crepe), um negóço que Aninha trússi aí ôto dia. Prefiro uma galinha agabidela (cabidela) com cuzcuz e malagrete (vinagrete)
L: Olha, trouxe esses doces pros teus meninos. Do que eles gostam?
T: Sorvete Sandro (Sundae), chacolate (chocolate) e crenogema (Cremogema)
L: Certo. E desde quando Cremogema é doce?
T: Só num é sargado.
L: Aquela executada passou aqui pra assinar o mandado judicial?
T: Passô sim. Ei, ela é muito intrimitida (intrometida), viu!? Chegou aqui, tomou confiança (ciência) no processo, dizendo que tava no carro da Auxiliadora (seguradora) e não ia esperar. Saiu do flóro (Fórum) na maior carrêra.
L: E deixou algum número de telefone?
T: Deixô esse aqui. Disse que era pra você entrar em contrato (contato).
LUCENA FILHO
“Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz” (Teatro Mágico - Música Zazulejo)
segunda-feira, 30 de março de 2009
Diálogos - Tibério
Encontrei meu amigo Tibério semana passada. Já não o via há quase um mês. Um dia até escrevi sobre um relato dele por aqui. O rapaz tem uma postura um tanto complexa. Mora sozinho, está no mestrado em Antropologia, vive ouvindo Radiohead, tem crises existenciais, detona o capitalismo, mas não perde por nada a promoção das quartas do McDonalds, onde ele lê religiosamente a Revista Carta Capital.
Ao primeiro olhar, Tibério aparenta ser ranzinza, inconveniente, maledicente e sombrio, mas não passa de um pseudodepressivo puro, de olhos negros e cabelos despenteados, e que não perde a chance de expressar sem filtros seus sentimentos. Aprecio pessoas assim. Vivem me perguntando o porquê de eu ainda investir numa amizade com o cara se ele, às vezes, me dá umas cortadas e confronta sem medos o que outros elogiariam.
Pois bem. Liguei para nosso amigo na última sexta-feira e fomos tomar um café num bistrô novo lá em Petrópolis. Falamos amenidades, sobre mulheres, futebol, amor, Obama, filmes, não necessariamente nessa ordem. De súbito, Tibério mudou de assunto:
T: Lucena, você é feliz?
L: Ih, lá vem tu com esses assuntos difíceis de se conversar. Mas sou sim, cara, digo, acho que sou. Sei lá... Você não?
T: Às vezes.
L: Como assim?
T: Não creio na felicidade como estado de espírito ou sensação contínua e eterna.
L: Alguma razão para tanto?
T: Penso haver momentos felizes. Como se fossem flashes, sabe. Você tem boas sensações em períodos pontuais.
L: Tibério, isso não parece vazio demais? Quer dizer, você passa mais tempo procurando esses momentos do que os usufruindo?
T: É por aí. Se você perdesse amigos, família, carro, emprego, continuaria feliz?
L: Naturalmente não.
T: Por que naturalmente?
L: Bom, isso é o suporte de qualquer pessoa.
T: Por isso que você não é feliz. Você está feliz... até que essas circunstâncias desapareçam.
L: E você ainda queria que eu fosse feliz numa situação dessas?
T: Você não me disse que ERA? Se você é, pressuponho que esteja inerente ao seu caráter, pessoa e própria existência. Se sua felicidade consiste nas pessoas ou coisas, por mais próximas que elas sejam, você está feliz. A grande questão gira em torno de mudança de circunstâncias.
L: Não captei.
T: Pelo princípio de que tudo é efêmero (inclusive nós), uma hora as circunstâncias sumirão. Em momentos dessa natureza, inconscientemente somos levados a substituir as antigas realidades por novas, seja através de um novo carro, promoção no emprego, casamento, ampliação do círculo de amizades, etc. Uma espécie de ciclo.
L: E como você define tais caçadores de felicidade?
T: Pessoas ocupadas, muito ocupadas e ao mesmo tempo tão vazias quanto a minha carteira agora.
L: Garçom, a conta!
Lucena Filho
domingo, 22 de março de 2009
Amigo
Amizade. Alguém tem um manual de instruções para ela? Negocinho complicado de se manter, especialmente quando as exigências do outro lado são enfadonhas e pesadas demais. Tem amigo pra todo tipo e gosto. Estava eu classificando os meus aqui. Obviamente, nem todos são amigos no sentido mais original da palavra, porém vou promovê-los por hoje. Lá vai:
Amigo SAMU – É aquele que quando você está mal e liga ele chega rapidinho.
Amigo virtual – Nunca te viu, ouviu, abraçou, mas sabe tudo da sua vida. Uma espécie de confidente das sombras, no qual você despeja suas angústias e segredos e o faz jurar que não vai contar pra ninguém;
Amigo DE (Dedicação Exclusiva) – Na verdade, essa é uma raça espúria e medíocre, pois exige atenção canalizada só para ele. Não há espaço para outros candidatos no seu círculo de contatos. Ou ele ou mais ninguém. Cuidado! Essa espécie é carente ao extremo e vai tentar te forçar a não desenvolver relacionamentos outros. Quer saber? Manda pastar. Amigo mesmo te aceita pela sua essência e não te proíbe de nada.
Amigo arroz – Só faz te acompanhar pra onde você vai. Nada mais. Trata-se de espécie que não precisa falar (na verdade você nem faz muita questão que ele faça isso). Esse tipo de amizade é muito ativa quando você não quer passar vergonha sozinho e precisa de um cúmplice.
Amigo lombriga – Onde você vai o cara tá junto. Você é o hospedeiro dele. Ele come o que você pedir, frequenta os mesmos locais que você e obviamente confia no seu bolso e na carona garantida.
Amigo funkeiro – O sujeito nunca fala contigo, não manda uma mensagem, maior muquirana, mas chega pra você no estilo “um tapinha no ombro não dói”, abre o sorriso amarelo e diz: tava com saudades de você, cara.
Amigo terapeuta – Está sempre te confrontando sob a alegação de que os amigos não passam a mão na cabeça e sim falam a verdade. Em certo momento dá vontade de mandar ele ir pra ponte que caiu.
Amigo advogado – Você chega pra ele e diz “vamos tomar alguma coisa”. Ele responde: “de quem?”.
Amigo orkuteiro – É seu amigo só porque tem o título “Fulano quer te adicionar como amigo. Aceitar, recusar”. Recuse!
Amigo classificados – Não há uma programação do fim de semana fora do conhecimento dele. Ah, esta espécie também sempre sabe de alguém com um carro pra vender, casa para alugar ou de um barzinho novo na cidade. Muito útil.
Amigo sacana – Te dá um celular com linha pós-paga de presente de aniversário
Amigo faniquito – Quando chega a sexta-feira a criatura despiroca, enlouquece. Quer sair de casa a pulso, nem que seja pra comer espetinho de carne de gato e falar da vida alheia na calçada.
Amigo desocupado – O que perdeu tempo lendo isso.
Amigo SAMU – É aquele que quando você está mal e liga ele chega rapidinho.
Amigo virtual – Nunca te viu, ouviu, abraçou, mas sabe tudo da sua vida. Uma espécie de confidente das sombras, no qual você despeja suas angústias e segredos e o faz jurar que não vai contar pra ninguém;
Amigo DE (Dedicação Exclusiva) – Na verdade, essa é uma raça espúria e medíocre, pois exige atenção canalizada só para ele. Não há espaço para outros candidatos no seu círculo de contatos. Ou ele ou mais ninguém. Cuidado! Essa espécie é carente ao extremo e vai tentar te forçar a não desenvolver relacionamentos outros. Quer saber? Manda pastar. Amigo mesmo te aceita pela sua essência e não te proíbe de nada.
Amigo arroz – Só faz te acompanhar pra onde você vai. Nada mais. Trata-se de espécie que não precisa falar (na verdade você nem faz muita questão que ele faça isso). Esse tipo de amizade é muito ativa quando você não quer passar vergonha sozinho e precisa de um cúmplice.
Amigo lombriga – Onde você vai o cara tá junto. Você é o hospedeiro dele. Ele come o que você pedir, frequenta os mesmos locais que você e obviamente confia no seu bolso e na carona garantida.
Amigo funkeiro – O sujeito nunca fala contigo, não manda uma mensagem, maior muquirana, mas chega pra você no estilo “um tapinha no ombro não dói”, abre o sorriso amarelo e diz: tava com saudades de você, cara.
Amigo terapeuta – Está sempre te confrontando sob a alegação de que os amigos não passam a mão na cabeça e sim falam a verdade. Em certo momento dá vontade de mandar ele ir pra ponte que caiu.
Amigo advogado – Você chega pra ele e diz “vamos tomar alguma coisa”. Ele responde: “de quem?”.
Amigo orkuteiro – É seu amigo só porque tem o título “Fulano quer te adicionar como amigo. Aceitar, recusar”. Recuse!
Amigo classificados – Não há uma programação do fim de semana fora do conhecimento dele. Ah, esta espécie também sempre sabe de alguém com um carro pra vender, casa para alugar ou de um barzinho novo na cidade. Muito útil.
Amigo sacana – Te dá um celular com linha pós-paga de presente de aniversário
Amigo faniquito – Quando chega a sexta-feira a criatura despiroca, enlouquece. Quer sair de casa a pulso, nem que seja pra comer espetinho de carne de gato e falar da vida alheia na calçada.
Amigo desocupado – O que perdeu tempo lendo isso.
Boa semana
LUCENA FILHO
domingo, 11 de janeiro de 2009
Tibério
Fruto Sagrado - Superman
Trinta de novembro de dois mil e seis. Vinte e três horas e cinqüenta e sete minutos. Céu sem estrelas, vento parado, calor escaldante, pensamentos preguiçosos, uma música melancólica, novembro indo embora, dezembro (e suas hipocrisias) acenando e dedos atacando um teclado amarelado era tudo o que Tibério tinha ao seu dispor naquele dia. Era surpreendente como a vida podia ser tão bela, cheia de sentido, colorida, dinâmica e ao mesmo tempo monótona, nebulosa, complexa e passageira. Tirara o dia para pensar como em alguns momentos era tão imbatível, verdadeiro superhomem moral e no instante posterior um golpe de perguntas, tristezas, espanto e sentimentos obscuros o invadiam como o odor de uma Alfazema suplanta um ambiente perfumado com fragrâncias finas; uma espécie de horizonte nublado: encantador, mas nostálgico e carregado de lembranças.
LUCENA FILHO
Trinta de novembro de dois mil e seis. Vinte e três horas e cinqüenta e sete minutos. Céu sem estrelas, vento parado, calor escaldante, pensamentos preguiçosos, uma música melancólica, novembro indo embora, dezembro (e suas hipocrisias) acenando e dedos atacando um teclado amarelado era tudo o que Tibério tinha ao seu dispor naquele dia. Era surpreendente como a vida podia ser tão bela, cheia de sentido, colorida, dinâmica e ao mesmo tempo monótona, nebulosa, complexa e passageira. Tirara o dia para pensar como em alguns momentos era tão imbatível, verdadeiro superhomem moral e no instante posterior um golpe de perguntas, tristezas, espanto e sentimentos obscuros o invadiam como o odor de uma Alfazema suplanta um ambiente perfumado com fragrâncias finas; uma espécie de horizonte nublado: encantador, mas nostálgico e carregado de lembranças.
Sabia ele que paradoxos como aqueles o tornavam humano de verdade, repleto de dialéticas inexplicáveis e sensações contraditórias capazes de transmutá-lo em algo provisoriamente estranho, mas que no fundo era parte dele mesmo – o chamado lado negro da força. A essência da questão era saber lidar com essa alternância de humores, pensamentos e embates cognitivos. Mas como encarar esta guerra se era tão frágil quanto à própria sinceridade? Bastava alguns elementos como ausência de distorções elétricas, palmas, percussões, uma pitada de meia luz e uma dúzia de minutos mergulhados no nosso próprio 'eu' e alguns olhares para o alto para que nosso castelo de boas expectativas, sorrisos e fraternidade desmoronassem. Era ele influenciado por tudo, menos pelos valores pregados. Aliás, essas circunstâncias (boas ou más) fundamentavam a construção dos princípios dele e estado de espírito (?).
Estava confuso. Aquela era uma noite sem muitas respostas. Lançava as perguntas como se joga papel picotado nos arranha-céus paulistas em fim de ano. Perguntas para a vida, sobrevida, morte, certo, errado, bom, mal, amigos, inimigos, amor, paixão, momentos, eternidade e outros questionamentos semi-inexplicáveis e autointerpelações indignas de citação. Definitivamente não tinha as respostas que gostaria e isto o massacrava. Resultado: oscilava entre instantes de felicidade e completa resignação, mas, principalmente, traduzia-se numa busca constante de sentido para tudo que fazia, falava, pensava. Esta procura era trilhada por espinhos, pedras, pessoas, fatos, problemas, contentamento, os quais juntos uniam-se na busca de uma sensação comumente chamada de felicidade. Felicidade esta variável, conforme já falado, de acordo com os elementos componentes da atmosfera psicológica existente em determinado lugar, a uma certa hora e incidente sobre determinada pessoa.
Tibério, cansado de si mesmo, desligou o computador e mergulhou na alma despedaçada. Em busca de quê? Nem ele ao certo sabia...
LUCENA FILHO
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Sei não...
Dia desses tava trocando umas idéias com CP e definitivamente vi como homens e mulheres têm chips diferentes. A impressão que tenho é que a programação é diferente. O assunto era basicamente amor, paixão e sentimentalidades. Eu, nos últimos 23 anos, tenho sido pragmático e desastroso para essas coisas. Sou muito melhor pensando em assuntos menos cansativos e desafiadores, mas as mulheres não. Ah, as mulheres (suspiro).... Elas são capazes de escrever uma Barsa só sobre a incapacidade humana de se relacionar de forma decente e eu acho isso o fantástico.
Particularmente, e não poderia ser de outra maneira, e poucas palavras não creio em sobrenaturalidades quando o assunto é amor. Fico com a frase de teatro mágico que diz os “dispostos se atraem e os opostos se distraem”.
Da discussão surgiu a pérola dessa figura trintenária e que admiro com ênfase. Com vocês, PORTO, Carolina. Espero a opinião dos meus ainda pouco leitores.
LUCENA FILHO, H. L. de.
Sei não...
Esses dias fiquei me questionando porque coisas ruins acontecem com pessoas boas... porque acabamos amando gente que não merece nem sequer uma olhada, ademais a dedicação de um coração sincero...
E mais, vejo tantos que começam e terminam relacionamentos com a facilidade de quem esfrega os olhos quando atravessa a fumaça; enquanto outros, meu Deus, para começar ao menos uma paquera, precisam da mesma habilidade e destreza de Hércules quando desempenhou suas 12 tarefas... Ah! sem falar numa sorte tão grande, mas tão grande, que pode ser comparada a de quem encontra uma orquídea azul!
Bom, não sou expert em relacionamentos, longe disso, e menos ainda adepta do laboratório sentimental que muitos estão habituados ou habituando-se a fazer, enquanto procuram um novo amor; mas, penso que o amor, aquele verdadeiro, escolhe as pessoas e não o contrário.
Hoje, penso que alguns vivem paixões – no sentido carnal da palavra -, outros vivem relacionamentos intensos que até são duradouros e podem virar casamentos, porém, poucos, contados, vivem aquilo que pode se chamar de AMOR.
Nesse meio tempo, alguns – querendo ser sorteados – ficam usando um milhão de estratégias para atrair o desejado cupido; esse, de longe verifica sua lista de alvos e passa longe daquele que não está contido nos seus escritos.
Já vi gente fuçando orkut para aprender o máximo do escolhido pretendente, a fim de na primeira oportunidade compartilhar “sinceramente” dos mesmos gostos, livros, filmes, comidas e esportes que o referido objeto do desejo. Já vi também pessoas que se disfarçam – peruca e tudo – para efetuar uma diligência e descobrir quais os lugares que têm de freqüentar e conhecer para ter uma chance. Já vi tanta movimentação esquisita que até Deus duvida... ou, pelo menos, fica abasbacado com a criatividade.
Afinal, onde e como convencer esse maldito cupido de desviar uma flechinha na direção daqueles que carecem de uma oportunidade ? Sei não... sei não...
Como a saída ainda não foi encontrada, começa o desespero; dia de festa, ida ao shopping, a um aniversário ou qualquer outro evento, social ou não, e pegue produção! Aff... é muito gasto... e pode ser homem ou mulher, viu? Porque não venha me dizer que só as mulheres se embelezam para sair que isso é a mais pura mentira; e isso tudo, na esperança de, um dia, estar bem no meio do caminho quando a flechinha for passando...
Bom, mas, infelizmente, tenho percebido que nada disso adianta muito. E o pior, quanto mais se faz esforço a coisa vai piorando, parece que o maldito ser mitológico fica com raiva daqueles que possuem olhar pidão!
E então, o que fazer? Sei não... mas, parece que nada. Aliás, precisa salientar que esse nada tem que ser de coração, de verdade mesmo... se for um nada tentando driblar o soldadinho do amor, piora tudo! Tem que esquecer do assunto, ficar de bobeira, não pensar mesmo, nem ligar – sem fingimento- só aí, pode ser que – se seu nome estiver na lista – você seja contemplado.
E mais, tem que ser contemplado e perceber que está sendo, viu? Sim, porque tem umas figurinhas aí, que já estão mais furados que peneira de tanto levar pinicada e não sentem nada... pensam que foi um mosquito que o atingiu e inventam mil desculpas para não agarrar o tal do amor.
Agora, vejam bem que coisa injusta, enquanto uns morrem de estar atentos e pulular tentando chamar a atenção do tal anjinho, outros esnobam dele e simplesmente desprezam seu serviço. Sei não, acho isso errado!
Acho mesmo é que devia ter fila de inscrição. Explico. Aqueles que estivessem interessados no quesito amor, deveriam escrever – via orações ou algo do gênero – para o destinatário responsável, a fim de terem sua solicitação atendida. Aqueles que não se importassem muito com isso, e quisessem outros elementos de vida, pegariam outra fila e pronto! Estaria resolvido o assunto e ninguém se sentiria desprestigiado ou desatendido; como também não veríamos pessoas que tem o amor aos seus pés, o desprezarem com a mesma facilidade de quem joga fora a caixinha de cotonetes que acabou.
Sei não... será que esse cupidinho poderia rever essa metodologia de escolha?
Com o intuito de ajudar, solicito que aqueles que puderem dizer o endereço de tal servidor dos céus me comuniquem, acho que irei propor a ele uma oficina de reciclagem.
PORTO, Carolina.
sábado, 27 de dezembro de 2008
PORTO, Carolina
Como um blog tem o fito de aproximar um público desconhecido para uma realidade desconhecida, decidi compartilhar com vocês a existência de alguns personagens que de um modo ou de outro interagem comigo. A estreante será uma moça chamada Carolina Porto. Ela é uma daquelas pessoas diferentes, aparentemente alternativas, imprevisíveis. Tem um raciocínio rápido, olhos grandes, gesticula tanto quanto um italiano, adora falar sobre coisas 'densas' - conforme ela mesmo diz - sempre inclina a cabeça quando sorrir e viaja quando dá vontade (passou seis anos para concluir a faculdade de oito semestres por conta disso).
Carolina ou CP (como eu a chamo) tem umas abstrações muito interessantes e que aqui, acolá vão aparecer por aqui. De início, para entender o abaixo descrito é importante que você leia uma postagem chamada “A normalidade da loucura”. Continuando... hoje vocês vão saber como nos conhecemos. Abaixo, nossa nova amiga descreve minuciosamente esse dia ímpar.
PORTO, Carolina.
Passados dias turbulentos, resolvi tirar um mês sabático.
PORTO, Carolina.
Passados dias turbulentos, resolvi tirar um mês sabático.
Tive a brilhante idéia de viajar pelo sertão do nordeste. Aí, logo se pensa – essa moça deve estar pagando penitência – bom, foi quase isso. É que dizem que depois da tempestade vem a bonança; então, quis dar uma ajudinha ao destino e marcar esse divisor de águas. Resolvi fazer algo diferente, ir a lugares pouco comuns para ver se os pensamentos clareavam, se via ou conhecia coisas e pessoas interessantes. E não é que aconteceu isso mesmo....
Do alto dos meus trinta anos – acho isso o máximo – com a cabeça farta de toda álgebra linear que a minha faculdade de engenharia mecatrônica permite, resolvi dar um tempo. Aliás, um adendo, me acho paradoxal.... como uma pessoa que tem como cotidiano lidar com análise de dinâmica linear, geometria analítica, cinemática e etc. pode gostar de música clássica, Claude Monet, Pablo Neruda e sorvete de menta? Estranho... mas, o ser humano é estranho.
Bom, é preciso me apresentar. O nome vocês já sabem, a idade também já disse. Nasci em Porto Alegre mas, não passei o tempo inteiro lá. Sempre quis ver o mundo, por dentro e por fora, caso contrário não tem graça. Viajei um pouco – de verdade e pelos livros também -, aliás, a leitura é uma das minhas paixões. Mas, a maior delas é pensar nos sentimentos, ô coisinha difícil de entender... prefiro cálculo avançado.
Falemos da viagem. Então, estou eu meio a uma madrugada, parada em um terminal rodoviário esperando meu transporte para a próxima cidade sertaneja do roteiro quando, de longe, avisto uma cena estranha. Um rapaz tentando ler e sendo interrompido por um cara meio “esquisito” falando em tom bem alto. O pobre leitor tinha feição fechada, olhos de surpresa e parecia muito incomodado com a abordagem do outro mas, tentava ser minimamente educado. Tenho certeza que a dupla não percebia que estava sendo observada de longe.
A conversa pareceu breve, mas, eu, do alto de uma curiosidade que me é peculiar, fiz um esforço colossal para ouvi-la. Porém, sem sucesso. Vi apenas quando o indivíduo perturbador foi embora praguejando. Nesse momento, a dita curiosidade corroía meu cérebro e já estava tomando meus ossos e eu, nada de coragem para me aproximar do moço e perguntar do que se tratava o diálogo.
O tempo passava, e a sensação só aumentava dentro de mim... Felizmente, quando estava a ponto de ter uma síncope, o ônibus que eu aguardava estacionou na plataforma do terminal. Levantei, frustrada, e me dirigi a ele. Vi então as preces de uma pobre criatura abelhuda começarem a ser respondidas; não era que a vítima do sujeito perguntador se dirigia ao mesmo ônibus que eu... Fiquei animada!
Uma vez acomodada na poltrona 34 (do lado da janela) e, qual foi minha surpresa, quando o abordado sentou-se ao meu lado. Pensei: “Devia ter feito faculdade de jornalismo...” . O ônibus deu partida e o moço continuava lendo concentrado, enquanto eu me contorcia – ainda mais - de curiosidade. Foi quando de súbito, descontrolada e num ato de loucura, perguntei: “Desculpa... mas, não pude deixar de perceber... sobre o que você e aquele senhor esquisito conversavam?” O pobre moço, mais uma vez atormentado por outro ser inconveniente, me olhou com ar de poucos amigos, fechou o livro com força, e então foi aí que tudo começou...
Domicianus Dominorum
Quando laborei lá pelas bandas do Sertão Central Pernambucano, carinhosamente chamado de Polígono da Maconha, conheci um rapazote. E ele era isso. Um rapazote. Puro e seco. No sentido mais profundo e também superficial da palavra. Até hoje procuro adjetivos apropriados para o dito cujo, mas as descrições fogem dele como o trancoso corre da cruz. Certo dia, quando o sol fervia no alto do meio dia, sentou-se o mencionado ao meu lado e, como um Forrest Gump das brenhas, começou a debulhar sua história. Por isso, para manter o máximo de fidelidade possível, reservo-me ao direito de apenas contar os fatos exatamente como sucedidos, deixando as conclusões para quem ler.
O nome da criatura era Domiciano Silva e Silva. Filho de Dolores Silva e Alciano Silva. E como no dia do casamento, o Padre disse ‘e serão ambos uma só carne’, nada mais justo do que juntar os nomes dos pais para chamar a primeira e única cria.
Dodó – alcunha afetiva outorgado pelos pais – até os vinte anos era o típico filho de camponês. Acomodado com tudo e todos e detentor de um estilo de vida bem previsível, Domiciano acordava cedinho, ordenhava as vacas, alimentava os ‘pôico’, como mesmo dizia ele, ajudava o pai na plantação, vendia leite no fim da tarde e fazia pão à noite. Diariamente as atividades se repetiam, sem nenhuma mudança significante. Até que um dia... Ah! Até que um dia a 'besta fera' chegou dentro de casa: a televisão.
Agonia e rebuliço mental maior não podiam esperar. O fato se deu num sábado, depois da feira, quando o novo telespectador chegou em casa com uma Cineral preta. Um filhote de incinerar com funeral.
- Paaiii, olhe só o que eu trouxe...
- Oxe, oxe, oxe. Que djabo é isso, menino?
- Homiiii, é uma televisão. Troquei ela em Fafá e voltei cinqüenta real – a vaca de estimação com tetas tamanho GGG e que nem sonhava Dodó a coincidência com a realidade.
- É o que? Trocou sua vaca por essa tranqueira aí? Se abestalhou foi?
- Eu não! A gente carece de um divertimento, né, mãe?, disse Dodó olhando desconfiado.
- E pra que tu quer uma televisão? Nem ler tu sabe, vociferou o pai.
- Pai, o senhor conversa muito miolo de pote. Deixei de coisa! Pra fazer ela ligar nem precisa saber ler. É só ver as pessoa tudo passando e as história delas se enrolando. Até rimou!
Pois bem. Foi a televisão chegando e a paz saindo. A quadradinha mexeu e remexeu com os neurônios do rapaz. Parecia um mundo recém-descoberto. Cada detalhe deveria ser absorvido e observado, sem perda de tempo. A partir daquele dia, talvez fosse apropriado classificar Domiciano como um rapaz, digamos... diferenciado para a região e circunstâncias de criação. A bendita da caixa preta que mostrava os quatro cantos do mundo de fora pra dentro e vice-versa alterou toda a rotina da família.
Falando em região, é merecido apontar que o protagonista da história e família nasceu e cresceu num sítio chamado Cuvico, distante umas dez léguas da cidade mais próxima, Bodó, que por sua vez ficava a todos os quilômetros da capital. Lá moravam umas trinta pessoas, dentre elas Januário, amigo e confidente de Dodó, tão matuto e isolado do mundo quanto este e que nem sonhava com o nível de conversa por vir nos próximos meses.
Voltando... De vigoroso e incansável trabalhador, Domiciano transmutou-se numa dondoca de barba, abusada e cheia de direitos. Só queria saber de apertar o Power e navegar nas imagens sedutoras e coloridas da telinha. Nada escapava. De desenho animado à sessão da tarde, passando pelas propagandas da Polishop e novelas mexicanas tudo era digerido sem critério. E nesse ritmo frenético, a mente virgem do sertanejo foi pouco a pouco colonizada sem choro nem vela, recebendo mensagem boa e também muita mazela.
As tarefas foram afetadas. Trabalho braçal até era feito, mas somente com muita insistência e lamúria do pai. Antes de qualquer atividade, o rapaz colocava uma bota velha e fazia alongamentos, corridas, exercícios. Ordenhar as vacas somente depois de lavar bem as mãos com sabonete Dove para não transmitir bactérias. Capinar? Nunca mais! Poderia ser acometido de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Alimentar e comer carne de porco? Pior ainda. Um dos documentários vistos por Domiciano afirmara que todos aqueles pertencentes à família Silva eram descendentes dos Barões do Café e estes, por sua vez, tinham ascendência judaica. E como todo judeu que se preze, carne suína era proibida! Fazer o próprio pão? Somente com Farinha Dona Benta. A aposta no jogo do bicho usual às sextas-feiras estava com os dias contados. Dali em diante somente telesena e lance mínimo nos programas de fofoca da tarde.
Dona Dolores só faltou endoidar com as novas regras de Dodó. Isso sem falar que a dispensa parecia mais um workshop de multinacionais de detergentes, biscoitos, cremes, etc. O dinheiro da aposentadoria do casal e os pequenos lucros desapareciam como relâmpagos no horizonte na hora de ir ao mercadinho da cidade. O filho do casal só queria tudo do bom e do melhor, conforme diziam as propagandas da televisão.
É certo que a nova aquisição tinha lá suas vantagens. Domiciano passou a falar mais corretamente, tudo bem que de vez em quando aqui acolá surgiam uns deslizes linguísticos, como um dia em que chegou pra mãe e disse que “a nível de conhecimento, ele iria estar querendo entrar numa escola”. Mas ele aprendeu isso lá na tevê com um filme sobre uma operadora de telemarquetingue. Também ocorria de misturar o vocabulário mais polido com o caipirês do berço. Para assimilar melhor os novos conhecimentos, Domiciano começou a caningar o pai:
- Pai, quero aprender a ler e escrever!
- Agora to aprumado, resmungou Alciano. Livro num enche bucho de ninguém. Pra quê tu inventou isso agora?
- Pra ficar mais sabido, oras. Quero poder ler as frases tudo que passa na televisão e entender um programa novo aí que tem dia de sábado.
- E que pograma é esse, Dodó?, perguntou a mãe.
- Açuletrano.
Já sem agüentar tantas perguntas e modismos dentro de casa (não que questionar fosse mau, mas quando se tratava de ter pai e mãe analfabetos tudo ficava mais complicado), o casal acatou o pedido do filho. E foi aí que Domiciano foi pra escola e a situação se agravou...
LUCENA FILHO
LUCENA FILHO
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