
Deveria ter feito esta postagem há uns quinze dias, mas fiquei digerindo as lições aprendidas para compartilhar com os prezados somente nesta data. Li um livro (e recomendo sem reservas) chamado “O Evangelho Maltrapilho”, do autor Brennan Manning, teólogo e filósofo norte-americano, e confesso ser essa uma das melhores e mais impactantes leituras já feitas por este que vos escreve. Manning, de forma magistral e deveras simples, te desmonta e monta em poucas páginas, desafiando nossos conceitos e paradigmas à respeito do evangelho da graça e de nossa dificuldade em aceitá-lo em face do nosso legalismo e religiosidade exacerbada.
E é justamente acerca deste divino favor imerecido que trata a obra. Nós cristãos (pós)-modernos temos uma dificuldade avantajada em aceitar o amor incondicional de Abba; um amor independente da nossa bondade ou malignidade e fundamentado na simples razão de que Deus nos quer exatamente como somos, cheios de imperfeições, medos, orgulho e pecados de diversas naturezas. No fim das contas, o fator determinante de uma existência digna e aprazível é não só aceitar, todavia, de igual maneira, abraçar o inexplicável amor de alguém tão bondoso, imaculado, paciente e cuidadoso com sujeitos moralmente pútridos, mentirosos, cheios de justiça própria e frágeis: eu e você. Todavia, é bom lembrar que, apesar de nos amar como somos, Ele se recusa a nos deixar como estamos.
No decorrer do texto, o autor demonstra o seguinte: por mais que tentemos, nada implicará um amor maior ou menor por parte do Pai porque Ele não tem filhos prediletos. A realidade é que os padrões impostos (até por nós mesmos) como ideais para uma vida cristã sadia são tão elevados e pesados que nunca chegaremos lá. As pessoas e instituições estão sempre nos cobrando resultados, expectativas, santidade radical, números, enfim, que sejamos superhomens, quando na verdade somos falhos, pecadores, pessoas de joelhos fracos e pés sujo de barro da áspera caminhada.
O resultado? Temos tantas regras a seguir e níveis a alcançar que a latente e cruel verdade em não conseguirmos só prospera a frustração, martírio e mutilação da alma. Temos sempre a sensação tensa para com Cristo. Se estamos bem, nos sentimos mal porque algo ruim está por vir; se estamos mal, a dor da culpa nos torna seres carcomidos pela angústia gerada. O que fazer? Aceitar uma realidade pouco pregada no meio evangélico, católico e afins: o perdão já está disponível para nós antes mesmo de nos arrependermos. É chocante para uma primeira impressão, mas essa é a verdade libertadora. Antes mesmo de irmos até Deus, desde o sacrifício do Calvário, a desculpa (desculpar – retirar a culpa) divina é a garantia de nossa cura. Incrível, não?
Outro aspecto interessante do livro é como ele coloca os efeitos da graça. Quando entendemos e experimentamos o amor de Deus na sua mais profunda essência, há uma transformação radical no coração humano. A partir de agora, buscamos andar em integridade moral e não pecar não porque nos seja exigido, mas como um mínimo de consciência, reconhecimento e gratidão por um cuidado, compreensão e compaixão dispensadas full-time. A experiência da graça é tão poderosa que nos permite passá-la adiante. Isto não se dá de forma extraordinária, mas sendo misericordioso e amável com seu irmão quando ele mais precisa – no erro; tratando as pessoas não como elas merecem, mas do ponto de vista do olhar de Deus sobre nós. Difícil? Sim, se tentarmos com nossa autosuficiência. Prazeroso quando se deixa ser afetado e cambiado pelo transformação interna advinda desse amor absurdo que educadamente nos bate a porta do coração dia após dia.
O Apóstolo Paulo disse: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, porém o maior destes é o amor” (1 Coríntios 13:13).
No centro desse turbilhão de fracassos, perdão, pecados, amor, atitudes maltrapilhas é que, embora tendo a certeza da nossa condição de faltosos por natureza, somos alvos de uma graça restauradora capaz de nos fazer arregimentar forças inexistentes, levantar, limpar a poeira e seguir adiante.
Termino a postagem com algumas palavras da introdução do livro e depois um curto vídeo do próprio autor.
LUCENA FILHO, o maltrapilho de Abba.
"O evangelho maltrapilho foi escrito com um público leitor específico em mente.
Este livro não é para os superespirituais.
Não é para os cristãos musculosos que têm Benny Hinn como herói, e não a Jesus.
Não é para acadêmicos que aprisionam Jesus na torre de marfim da exegese.
Não é para gente barulhenta e bonachona que manipula o cristianismo a ponto de torná-lo um simples apelo ao emocionalismo.
Não é para os místicos de capuz que querem mágica na sua religião.
Não é para os cristãos "aleluia", que vivem apenas no alto da montanha e nunca visitaram o vale da desolação.
Não é para os destemidos que nunca derramaram lágrimas.
Não é para os zelotes ardentes que se gabam com o jovem rico dos Evangelhos: "Guardo todos esses mandamentos desde a minha juventude".
Não é para os complacentes, que ostentam sobre os ombros um sacolão de honras, diplomas e boas obras, crendo que efetivamente chegaram lá.
Não é para os legalistas, que preferem entregar o controle da alma a regras a viver em união com Jesus. O evangelho maltrapilho foi escrito para os dilapidados, os derrotados e os exauridos.
Ele é para os sobrecarregados que vivem ainda mudando o peso da mala pesada de uma mão para a outra.
É para os vacilantes e de joelhos fracos, que sabem que não se bastam de forma alguma e são orgulhosos demais para aceitar a esmola da graça admirável.
É para os discípulos inconsistentes e instáveis cuja azeitona vive caindo para fora da empada.
É para homens e mulheres pobres, fracos e pecaminosos com falhas hereditárias e talentos limitados. É para os vasos de barro que arrastam pés de argila.
É para os recurvados e contundidos que sentem que sua vida é um grave desapontamento para Deus.
É para gente inteligente que sabe que é estúpida, e para discípulos honestos que admitem que são canalhas.
O evangelho maltrapilho é um livro que escrevi para mim mesmo e para quem quer que tenha ficado cansado e desencorajado ao longo do Caminho"
(Evangelho Maltrapilho, Brennan Manning)