quarta-feira, 27 de maio de 2009

Alô?!

A: Alô

LF: Alô

A.: Quem está falando?

LF: Você, oras!

A.: Boa tarde, Sr. LF?

LF: Pois não...

A.: Aqui é a Andréia do ‘blá blá blá’ card. Posso estar falando com o senhor um minuto?

LF: Você já está fazendo isso...

A.: Senhor LF, o senhor foi sorteado para receber gratuitamente o nosso cartão de crédito sem anuidade durante o período de doze meses.

LF: Obrigado, mas já possuo um cartão e não tenho interesse

A.: Sr. LF, com o nosso cartão o senhor terá descontos a nível internacional em passagens aéreas.

LF: Simplesmente não tenho interesse, querida. Obrigado.

A.: Ainda é possível trocar por pontos e produtos em nossas lojas.

LF: Querida, vamos fazer assim. Aguarde na linha que vou transferir para o setor competente, ok?

A.: Tudo bem.

Lá lá lá lá lá lá...

A.: Sr. LF, o senhor está aí? Alô?! Alô?!

...

LUCENA FILHO

terça-feira, 19 de maio de 2009

Veritas


As verdades doem, trituram, afrontam,
São atrevidas e imperdoáveis
Imagino e as comparo com seres de olhos vívidos
Incapazes de moverem as pestanas
Ora, não são verdades por acaso
Têm importância tamanha
Que até as mentiras se passam pelas tais

Elas desnudam, expõem, mostram suas feridas abertas
E liberam nossa fedentina moral
Todos a exigem
Raros são os psicologicamente estruturados para ouvi-la
Alguns até preferem viver entre as sombras do desconhecido
E a região nebulosa da omissão falseada

Outros suportam apenas meia verdade,
Embora neguem no discurso
(Aquela com um toque de purpurina incandescente)
Mas o certo enfeitado não é verdade. É lenda!

Ela também liberta, já dizia o carpinteiro nazireu
Todo ser livre teve o sacrifício da alforria,
O preço adequado para respirar per si
Ninguém é liberto por mera liberalidade
Quando se trata de destruir grilhões via verdade
O pagamento é a dor do indesejado
E a amargura de ver o que não se deveria
Veritas!

Lucena Filho

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sonho de uma flauta

Queridos,

Conhecer as canções do Teatro Mágico me fez ter uma nova percepção da língua portuguesa e da realidade. Estive no show da trupe em João Pessoa-PB [julho de 2008] e confesso que vi arte no sentido mais puro da palavra. Como todo mundo que se destaca alternativamente no Brasil, o TM também tem sido criticado por adotar estratégias de marketing disfarçadas. Pois é. Até nisso eles se sobressaem. Bem, hoje é dia de música e não me alongarei mais. Deixo o grupo com a música 'Sonho de uma flauta' falar por mim.

Saudações expressionistas

Lucena Filho

Sonho De Uma Flauta

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz
Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa
Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração
A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Briga que aparece pra trazer sorriso
Tem riso que parece choro

Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia
Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem a sede que morre no seio
Nota que fermata quando desafino
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Evangelho Maltrapilho

Deveria ter feito esta postagem há uns quinze dias, mas fiquei digerindo as lições aprendidas para compartilhar com os prezados somente nesta data. Li um livro (e recomendo sem reservas) chamado “O Evangelho Maltrapilho”, do autor Brennan Manning, teólogo e filósofo norte-americano, e confesso ser essa uma das melhores e mais impactantes leituras já feitas por este que vos escreve. Manning, de forma magistral e deveras simples, te desmonta e monta em poucas páginas, desafiando nossos conceitos e paradigmas à respeito do evangelho da graça e de nossa dificuldade em aceitá-lo em face do nosso legalismo e religiosidade exacerbada.

E é justamente acerca deste divino favor imerecido que trata a obra. Nós cristãos (pós)-modernos temos uma dificuldade avantajada em aceitar o amor incondicional de Abba; um amor independente da nossa bondade ou malignidade e fundamentado na simples razão de que Deus nos quer exatamente como somos, cheios de imperfeições, medos, orgulho e pecados de diversas naturezas. No fim das contas, o fator determinante de uma existência digna e aprazível é não só aceitar, todavia, de igual maneira, abraçar o inexplicável amor de alguém tão bondoso, imaculado, paciente e cuidadoso com sujeitos moralmente pútridos, mentirosos, cheios de justiça própria e frágeis: eu e você. Todavia, é bom lembrar que, apesar de nos amar como somos, Ele se recusa a nos deixar como estamos.

No decorrer do texto, o autor demonstra o seguinte: por mais que tentemos, nada implicará um amor maior ou menor por parte do Pai porque Ele não tem filhos prediletos. A realidade é que os padrões impostos (até por nós mesmos) como ideais para uma vida cristã sadia são tão elevados e pesados que nunca chegaremos lá. As pessoas e instituições estão sempre nos cobrando resultados, expectativas, santidade radical, números, enfim, que sejamos superhomens, quando na verdade somos falhos, pecadores, pessoas de joelhos fracos e pés sujo de barro da áspera caminhada.

O resultado? Temos tantas regras a seguir e níveis a alcançar que a latente e cruel verdade em não conseguirmos só prospera a frustração, martírio e mutilação da alma. Temos sempre a sensação tensa para com Cristo. Se estamos bem, nos sentimos mal porque algo ruim está por vir; se estamos mal, a dor da culpa nos torna seres carcomidos pela angústia gerada. O que fazer? Aceitar uma realidade pouco pregada no meio evangélico, católico e afins: o perdão já está disponível para nós antes mesmo de nos arrependermos. É chocante para uma primeira impressão, mas essa é a verdade libertadora. Antes mesmo de irmos até Deus, desde o sacrifício do Calvário, a desculpa (desculpar – retirar a culpa) divina é a garantia de nossa cura. Incrível, não?

Outro aspecto interessante do livro é como ele coloca os efeitos da graça. Quando entendemos e experimentamos o amor de Deus na sua mais profunda essência, há uma transformação radical no coração humano. A partir de agora, buscamos andar em integridade moral e não pecar não porque nos seja exigido, mas como um mínimo de consciência, reconhecimento e gratidão por um cuidado, compreensão e compaixão dispensadas full-time. A experiência da graça é tão poderosa que nos permite passá-la adiante. Isto não se dá de forma extraordinária, mas sendo misericordioso e amável com seu irmão quando ele mais precisa – no erro; tratando as pessoas não como elas merecem, mas do ponto de vista do olhar de Deus sobre nós. Difícil? Sim, se tentarmos com nossa autosuficiência. Prazeroso quando se deixa ser afetado e cambiado pelo transformação interna advinda desse amor absurdo que educadamente nos bate a porta do coração dia após dia.

O Apóstolo Paulo disse: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, porém o maior destes é o amor” (1 Coríntios 13:13).

No centro desse turbilhão de fracassos, perdão, pecados, amor, atitudes maltrapilhas é que, embora tendo a certeza da nossa condição de faltosos por natureza, somos alvos de uma graça restauradora capaz de nos fazer arregimentar forças inexistentes, levantar, limpar a poeira e seguir adiante.

Termino a postagem com algumas palavras da introdução do livro e depois um curto vídeo do próprio autor.

LUCENA FILHO, o maltrapilho de Abba.

"O evangelho maltrapilho foi escrito com um público leitor específico em mente.

Este livro não é para os superespirituais.

Não é para os cristãos musculosos que têm Benny Hinn como herói, e não a Jesus.

Não é para acadêmicos que aprisionam Jesus na torre de marfim da exegese.

Não é para gente barulhenta e bonachona que manipula o cristianismo a ponto de torná-lo um simples apelo ao emocionalismo.

Não é para os místicos de capuz que querem mágica na sua religião.

Não é para os cristãos "aleluia", que vivem apenas no alto da montanha e nunca visitaram o vale da desolação.

Não é para os destemidos que nunca derramaram lágrimas.

Não é para os zelotes ardentes que se gabam com o jovem rico dos Evangelhos: "Guardo todos esses mandamentos desde a minha juventude".

Não é para os complacentes, que ostentam sobre os ombros um sacolão de honras, diplomas e boas obras, crendo que efetivamente chegaram lá.

Não é para os legalistas, que preferem entregar o controle da alma a regras a viver em união com Jesus. O evangelho maltrapilho foi escrito para os dilapidados, os derrotados e os exauridos.

Ele é para os sobrecarregados que vivem ainda mudando o peso da mala pesada de uma mão para a outra.

É para os vacilantes e de joelhos fracos, que sabem que não se bastam de forma alguma e são orgulhosos demais para aceitar a esmola da graça admirável.

É para os discípulos inconsistentes e instáveis cuja azeitona vive caindo para fora da empada.

É para homens e mulheres pobres, fracos e pecaminosos com falhas hereditárias e talentos limitados. É para os vasos de barro que arrastam pés de argila.

É para os recurvados e contundidos que sentem que sua vida é um grave desapontamento para Deus.

É para gente inteligente que sabe que é estúpida, e para discípulos honestos que admitem que são canalhas.

O evangelho maltrapilho é um livro que escrevi para mim mesmo e para quem quer que tenha ficado cansado e desencorajado ao longo do Caminho"

(Evangelho Maltrapilho, Brennan Manning)