domingo, 18 de outubro de 2009

Tome cada um a sua cruz...

“Se alguém disser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34)

Esse texto ficou me martelando o dia todo hoje. E lembrei dele por razões desconhecidas. Mas enquanto o sinal estava no vermelho eu fiquei desdobrando essas palavras proferidas por Jesus Cristo.

Imagino que os problemas dos indivíduos no que toca à compreensão da dor da existência não eram, no ano zero da era cristã, muito diferentes dos atuais. O homem sempre teve dificuldade em aceitar que sua passagem pela Terra é efêmera e árdua. Ninguém vive de forma eternamente abastarda, desproblematizada e imune aos percalços, embora a ciência busque a todo custo minimizar os impactos dos males algozes da humanidade. Restar intacto aos 86.400 segundos diários é um verdadeiro desafio.

Eu gostaria de me restringir não à alegação de sermos ou não discípulos e de seguir a Jesus. Esta é uma questão de fé, passível de uma discussão posterior. A questão hoje é o ‘tome sua cruz’.

A cruz é um mal necessário. Umas mais pesadas; outras leves. Algumas de tão enfadonhas parecem feitas de jacarandá. E sem esquecer os que levam cruz até no nome. Ela representa a dor na ponta do estômago que se tem ao abrir os olhos, as palavras lançadas e não desejadas, a família distante, o pai alcoólatra, o desemprego que bateu à porta, o casamento esfacelado e que emporcalhou suas esperanças de felicidade, as decepções repetidas, os amores desalmados, enfim, qualquer coisa que lhe seja desconfortável, represente peso e difícil de se livrar.

Há os que só tomam a cruz, mas se negam a carregá-la. O texto mostra a ação de seguir (= caminhar, sair do lugar onde se está) e dá a idéia de imperatividade do movimento. Não como tomar o fardo e parar. Levar a cruz significa lidar com as dores recorrentes e delas não ser refém. Quem somente toma a cruz, sente o peso concentrado em suas costas de forma mais intensa. E a força na hipótese aventada é representada pressão exercida sobre um corpo parado. Os recalcitrantes em carregar suas dores estacionam e sentem o fardo da inércia. Aqueles que carregam lentamente distribuem a compressão da angústia por cada poro do corpo.

Eu vejo, não raramente, pessoas reclamando que a cruz está por demais cruel. Há criaturas que não bastassem terem que lidar com as intempéries de percurso, acham pouco e tentam levar a cruz do outro. Falo porque já fui acometido de tamanha ousadia. Se prestarmos atenção, a ordem é para cada um levar a SUA cruz. Se o pronome possessivo foi colocado nas palavras bíblicas é porque certamente alguém estava tentando tomar a cruz do outro ou tenderia a fazer isto. Eu entendo que a grama do vizinho sempre parece mais verde, a família do outro nunca aparentará ter os problemas da sua e o sucesso, aos seus olhos, será teratológico se comparado ao seu.

O que tem de gente querendo se travestir dos comportamentos, modelos e até problemas alheios é mais numeroso que aluno meia boca comprando diploma de supletivo. Quando se procura tomar a cruz do próximo, certamente não suportaremos carregar nem a que nos é devida nem a possivelmente objeto de usurpação.

Carregar os perrengues de outrem é querer ser o pai, mãe, braços, pernas, cabeça, namorado (a), amigo (a), psicólogo (a), orientador (a), discipulador (a) e conselheiro (a) quando na verdade você só deveria ser o companheiro. É mais ou menos abraçar o estresse de ser empregador enquanto você foi contratado pra ser apenas o empregado. É arrastar alguém sobre os seus ombros por tempo indeterminado, sabendo que uma hora ou outra você vai empenar irreversivelmente e não há fisioterapia moral que resolva. É levar um peso maior do que sua coluna foi projetada para suportar.

Entreguemos os pesos desnecessários. Já temos a força da gravidade para dificultar a caminhada.

Boa noite

Lucena Filho

3 comentários:

Ariane disse...

“Por que paras o cireneu?!”

Carla disse...

"Carregar os perrengues de outrem é querer ser o pai, mãe, braços, pernas, cabeça, namorado (a), amigo (a), psicólogo (a), orientador (a), discipulador (a) e conselheiro (a) quando na verdade você só deveria ser o companheiro. É mais ou menos abraçar o estresse de ser empregador enquanto você foi contratado pra ser apenas o empregado. É arrastar alguém sobre os seus ombros por tempo indeterminado, sabendo que uma hora ou outra você vai empenar irreversivelmente e não há fisioterapia moral que resolva. É levar um peso maior do que sua coluna foi projetada para suportar."

Nossaa..
eh isso!
Tu e tuas percepções acerca da árdua vida debaixo desse sol...

Continua 'percebendo'!

Beijo

kssvv disse...

Lendo esse texto, lembrei de uma frase que minha mãe sempre me dizia quando me via angustiada com meus pequenos “problemas/conflitos” que surgiam ao longo da minha vida: “Deus não nos dá o fardo maior do que podemos carregar...”. Por incrível que pareça, essa frase me confortava mesmo. Era um bálsamo para minhas angústias. Pois bem. Hoje, como estou me enveredando pelos caminhos da fé e, conseqüentemente, me tornei uma curiosa nos assuntos da Bíblia, fui logo procurar saber a origem dela. Tinha quase a certeza de que tinha origem bíblica. Não me enganei. Claro que primeiro utilizei o recurso “Google”, pq ainda não sei manusear bem o livro mais lido do mundo. Lá, me deparei, depois de uma breve busca, com uma mensagem que se encontra inserida no 1 Coríntios 10:13. Fui conhecer essa passagem e achei magnífica (não vou transcrever aqui para aguçar a curiosidade dos que ainda não conhecem). Depois de lida, percebi que realmente tem sentido. Pois olhei pra trás e vi que os meus problemas, incertezas, conflitos que surgiram em minha vida, foram todos suportados e superados. Isso mesmo. SUPORTADOS e SUPERADOS. Continuo minha caminhada e, claro, consciente de que a vida não é um mar de rosas. Quando vejo um contingente de pessoas passando fome, não tendo saúde, não tendo um lugar para se abrigar e outras mazelas mais, vejo que meu fardo é pequeno demais.