“Se alguém disser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34)
Esse texto ficou me martelando o dia todo hoje. E lembrei dele por razões desconhecidas. Mas enquanto o sinal estava no vermelho eu fiquei desdobrando essas palavras proferidas por Jesus Cristo.
Imagino que os problemas dos indivíduos no que toca à compreensão da dor da existência não eram, no ano zero da era cristã, muito diferentes dos atuais. O homem sempre teve dificuldade em aceitar que sua passagem pela Terra é efêmera e árdua. Ninguém vive de forma eternamente abastarda, desproblematizada e imune aos percalços, embora a ciência busque a todo custo minimizar os impactos dos males algozes da humanidade. Restar intacto aos 86.400 segundos diários é um verdadeiro desafio.
Eu gostaria de me restringir não à alegação de sermos ou não discípulos e de seguir a Jesus. Esta é uma questão de fé, passível de uma discussão posterior. A questão hoje é o ‘tome sua cruz’.
A cruz é um mal necessário. Umas mais pesadas; outras leves. Algumas de tão enfadonhas parecem feitas de jacarandá. E sem esquecer os que levam cruz até no nome. Ela representa a dor na ponta do estômago que se tem ao abrir os olhos, as palavras lançadas e não desejadas, a família distante, o pai alcoólatra, o desemprego que bateu à porta, o casamento esfacelado e que emporcalhou suas esperanças de felicidade, as decepções repetidas, os amores desalmados, enfim, qualquer coisa que lhe seja desconfortável, represente peso e difícil de se livrar.
Há os que só tomam a cruz, mas se negam a carregá-la. O texto mostra a ação de seguir (= caminhar, sair do lugar onde se está) e dá a idéia de imperatividade do movimento. Não como tomar o fardo e parar. Levar a cruz significa lidar com as dores recorrentes e delas não ser refém. Quem somente toma a cruz, sente o peso concentrado em suas costas de forma mais intensa. E a força na hipótese aventada é representada pressão exercida sobre um corpo parado. Os recalcitrantes em carregar suas dores estacionam e sentem o fardo da inércia. Aqueles que carregam lentamente distribuem a compressão da angústia por cada poro do corpo.
Eu vejo, não raramente, pessoas reclamando que a cruz está por demais cruel. Há criaturas que não bastassem terem que lidar com as intempéries de percurso, acham pouco e tentam levar a cruz do outro. Falo porque já fui acometido de tamanha ousadia. Se prestarmos atenção, a ordem é para cada um levar a SUA cruz. Se o pronome possessivo foi colocado nas palavras bíblicas é porque certamente alguém estava tentando tomar a cruz do outro ou tenderia a fazer isto. Eu entendo que a grama do vizinho sempre parece mais verde, a família do outro nunca aparentará ter os problemas da sua e o sucesso, aos seus olhos, será teratológico se comparado ao seu.
O que tem de gente querendo se travestir dos comportamentos, modelos e até problemas alheios é mais numeroso que aluno meia boca comprando diploma de supletivo. Quando se procura tomar a cruz do próximo, certamente não suportaremos carregar nem a que nos é devida nem a possivelmente objeto de usurpação.
O que tem de gente querendo se travestir dos comportamentos, modelos e até problemas alheios é mais numeroso que aluno meia boca comprando diploma de supletivo. Quando se procura tomar a cruz do próximo, certamente não suportaremos carregar nem a que nos é devida nem a possivelmente objeto de usurpação.
Carregar os perrengues de outrem é querer ser o pai, mãe, braços, pernas, cabeça, namorado (a), amigo (a), psicólogo (a), orientador (a), discipulador (a) e conselheiro (a) quando na verdade você só deveria ser o companheiro. É mais ou menos abraçar o estresse de ser empregador enquanto você foi contratado pra ser apenas o empregado. É arrastar alguém sobre os seus ombros por tempo indeterminado, sabendo que uma hora ou outra você vai empenar irreversivelmente e não há fisioterapia moral que resolva. É levar um peso maior do que sua coluna foi projetada para suportar.
Entreguemos os pesos desnecessários. Já temos a força da gravidade para dificultar a caminhada.
Boa noite
Lucena Filho