quinta-feira, 26 de março de 2009

Ex-plo-ra-ção

Quando secundarista, esperava ansiosamente pela aula de História. Era minha favorita. Sabia milhares de conceitos decorados, mas o favorito era “Para entendermos o presente e prever o futuro é necessário estudarmos o passado”. Não imaginava quão real era esta definição.

Ultimamente tem-se falado de maneira abundante – e é bom que se fale mesmo - sobre a exploração sexual no contexto brasileiro. Não obstante, para se entender a locução 'exploração sexual', no âmbito nacional, necessitamos detectar qual (is) forma(s) tomou o termo 'exploração' no desenrolar dos últimos cinco séculos. Diz Soares Amora em seu dicionário: Exploração: Ação ou efeito de explorar; (...); abuso de ignorância ou boa fé de alguém. O dicionário Luft ainda acrescenta o sinônimo ludibriar. Mas e os fatos?

Iniciemos pelo descobrimento (invasão?) do Brasil pelos portugueses. Em paz estavam nossos silvícolas quando aqui desembarcaram pessoas estranhas, totalmente vestidas, com uma língua diferente, táticas de guerra e objetos dos mais variados. Coitados. Caíram como peixes na rede do domínio lusitano. Não durou muito tempo até serem explorados nas suas riquezas, no seu trabalho e, conseqüentemente, terem suas mulheres compartilhadas, aliciadas, estupradas e outros 'adas'. Mas os nativos brasileiros eram sortudamente preguiçosos e não se acostumaram ao trabalho. Qual a solução? Muito lógica: importar exploração. Nossos antepassados trouxeram mão-de-obra africana pra cá e sugaram até a alma dos pobres crioulos.

Passaram-se as capitanias hereditárias, os governos-gerais, mas o caos continuava. Não teve jeito. Por aqui cruzaram corsários, holandeses e espanhóis (pelo jeito, atualmente é a vez dos escandinavos e italianos) e cada um tirando sua casquinha e imprimindo vergonha na historieta brasileira. Ficamos uns trezentos anos nesse ciclo vicioso e desenfreado. Crêem os senhores que pára por aí? Absolutamente não. Chegamos à tão sonhada independência! Era tempo de cortar os grilhões estabelecidos pelo domínio ibérico! Mas como fazer isso, se nossa independência foi forjada, uma cena política de atores figurantes? O brado de mais dependência, digo, independência ou morte, foi apenas uma expressão de efeito psicológico que arranjaram pra encaixar numa história até então manchada pelo sangue de índios e escravos. Até a próxima fase – a República - temos 67 anos de manutenção desse status

Estamos na República. Igualdade, liberdade e fraternidade estão em alta. A Constituição Federal de 1891 já dispunha inúmeros direitos fundamentais. Bela demais para ser verdade. Na prática, o presidencialismo, aliado a uma espécie de mini-monarquias estaduais e coronelismos municipais, abriu portas para uma opressão institucionalizada: o abuso de poder. Não sou hipócrita a ponto de dizer que não houve mudanças. Como não citar a criação da Consolidação das Leis do Trabalho, do voto direto, o crescimento da economia nacional? Porém, como não mencionar também a sujeição do povo a golpes de Estado, a coibição à liberdade jornalística, às manipulações internas geradas pela politicagem oligárquica, a bases americanas aqui instaladas e, por conseguinte, o bolinamento das mocinhas brasileiras (natalenses pra ser mais exato).

A segunda metade do século XX foi um show de autoritarismo: atos institucionais, execuções sumárias de jornalistas, estudantes e professores universitários, exilos, enfim, explorações travestidas de manutenção da ordem social. De repente, a nação acorda de um sono de quase quinhentos anos e decide agir: Diretas já! De brinde, ainda ganhamos a Constituição Cidadã. Novos horizontes surgiam nos sonhos de cada brasileiro.

Apesar da listinha de corrupções, agravada pelo apunhalamento que significou o confisco e exploração das cadernetas de poupança, a democracia chutou o atraso governamental. De lá para cá, temos enfrentado tempos difíceis com as privatizações em massa do patrimônio nacional, índices altíssimos de exploração do trabalho infantil, escândalos envolvendo até os intocáveis aplicadores da lei, expansão do sexo-turismo nas cidades litorâneas, taxação de inativos, aumento da carga tributária, flexibilização das leis trabalhistas, dentre outras facetas da tão bailada exploração do povo brasileiro. Infelizmente, é de raiz e está no sangue esse idéia de exploração. Para se ter uma idéia, até para publicar esta postagem tive de utilizar o famoso Internet Explorer.

LUCENA FILHO

3 comentários:

Ninie disse...

Texto rico, bem articulado. Uma retrospectiva histórica sem aquele “ar” de aula de história que nos leva pensar que estamos alheios aos fatos narrados, "história de outros". (Pelo menos é o que passava na minha cabeça nas aulas de secundarista.) Concordo plenamente com a frase “Infelizmente, é de raiz e está no sangue esse idéia de exploração.” Por diversas vezes, indignada com situações de exploração atuais percebi que não se trata apenas de exploradores oportunistas, mas, principalmente, de explorados coniventes e acomodados, me parece ser mais difícil de mudar este últimos do que abater aproveitadores dominantes. Tive a oportunidade de conhecer um pouco sobre a exploração do Turismo sexual aqui no nosso estado. Como uma estudante entusiasmada, investi minhas forças em elaborar projetos e ações para coibir esse tipo de turismo. Deparei-me com uma grande massa formada por dois tipos de pessoas: as que ganham MUITO dinheiro com essa atividade e por isso se alimenta do sentimento de impunidade e desprezo por qualquer sentimento moral mínimo e as que não gostam, repudiam, mas ainda se limitam no comodismo, na falsa sensação de vítima impotente que não pode fazer nada a respeito. Acredito que este sentimento está enraizado no coração brasileiro que se acostuma com o que é ruim, e prefere esquecer e cair na folia, ora, “Carnatal é Natal, Carnatal é lazer , é amor e prazer...Sorria...a festa é sua meu irmão ... : (

Cecilia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cecília Ethne disse...

Devo-lhe os parabéns...nunca havia parado para ler seus textos,Kylze sempre falou do seu dom de escrever bem, acho que isso é de família... agora pude confirmar.
sobre o texto Ex-plo-ra-ção, posso caracteliza-lo como um ÓTIMO texto, além de uma boa e adequada restropectiva histórica o texto tem uma ideia central impressionante...gostei :D