segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Lentes

Há três semanas um assunto tem me inquietado bastante. Explico-me. Conversei com algumas pessoas acerca de trabalho, relacionamentos, Deus, família, sucesso e percebi um denominador comum em todos os diálogos: um olhar distorcido e personalíssimo sobre os temas. Pelo que pude observar, todos exprimiram opiniões conclusivas sobre a matéria, baseados única e exclusivamente nas suas amargas experiências, ignorando, inclusive, uma série de bons momentos e vivências positivas. Porém, como já é sabido, o mal sempre se alastra em escalas exponenciais e, conforme já citava Shakespeare, “com o tempo você aprende que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la”.

Comparo a análise de situações desse tipo como se tivéssemos lentes à disposição e cada uma delas proporcionasse um tipo de foco para o que desejamos ver. Existem as da frustração, amargura, desconfiança, ódio, desilusão, endurecimento, fantasia, mentira e por aí se vai... Só citei as de natureza negativa em face de serem as que, em regra, prevalecem. Veja-se um caso muito corriqueiro: uma dos quais conversei dizia-me que por toda a vida sempre respeitara seus namorados, mas só havia sido retribuída de maneira oposta e que, por isto, não cria mais na solidez dos relacionamentos, amor, etc. Ora, posicionar-se pela relativização ou mesmo pregar a nulidade de algo pelo insucesso pessoal é pretender tornar o próprio umbigo como centro do universo. É olhar um conceito com a lente da decepção e criar uma imagem do que se QUER ver e não do que se É. Seria como pensar “se não deu certo comigo é porque não é bom, possível ou real”.

Acontece que o mundo não gira em torno dos nossos desejos, ainda que assim queiramos ou ajamos. Se todos formulássemos concepções deturpadas sobre as áreas da existência humana - cada um de acordo com suas experiências - e isso fosse determinante na concretização dos conceitos o mundo seria um caos (maior).

Indubitável que os percalços diários integram o quadro de visão de como alguém encara a vida. Afinal, cada pequena experiência – boa ou má – contribui de alguma forma para sua formação cósmica, porém, desconsiderar o conjunto dos valores em detrimento dos casos meramente ofensivos é condenar-se a um mundo desprovido de referências válidas e isto é um passo para um mar de sofismas.

Um aspecto a ser ponderado é que nossas más recordações nem sempre são resultados de erros alheios. Penso que na maioria das vezes sejam frutos de péssimas escolhas que fazemos. É a(o) namorada(o) cretina (o) que você se precipitou em abraçar como salvação para todas as suas carências e sonhos, a falta de esforço suficiente para se alcançar o emprego desejado, a independência de Deus e sua insistência em dizer que Ele aparentemente esqueceu de você, a falta de senso de tolerância e respeito com seus amigos e familiares, etc.

Portanto, sejamos mais racionais e menos egoístas. Circunstâncias adversas e quedas morais sempre ocorrerão e são partes tão necessárias quanto suas vitórias na lida diária. Tendemos à revolta quando contrariados e à necessidade de colocarmo-nos num pedestal de orgulho infundado e rebeldia superior às fraquezas, quando deveríamos tentar consertar os erros. Não pense que nenhum queijo presta porque o seu mozzarella veio estragado.

Lucena Filho

4 comentários:

Eleandro disse...

Até concordo com você com relação as experiências e como elas moldam a forma de ver as coisas e necessidade não crer que algum dia dará certo. O problema é que, depois de sucessivas tentativas ruins que acontecem, é difícil crer que vai dar certo. Duas vezes que se coloca o dedo na tomada não terá uma terceira vez.
Tenho resistência a algumas pessoas e coisas, não tenho mais força para crer que elas dar certo. Prefiro evitá-las.

MARCELO SOARES disse...

Primeiramente, você escreve muito bem, parabéns.

Sobre o tema, acho que é a coisa de se "cansar de tentar e não conseguir". A pessoa para a atribuir a tudo o grau que teve no passado. Mas, concordo que a esperança e analise é algo importante de se ter sempre se quiser ter mais vitórias que derrotas, e mesmo as derrotas podem se tornar aprendizados para novas vitórias.

Wendy disse...

Muito, muito bom o texto...qualidade e sensibilidade são mesmo atributos que o perseguem, isso é inevitável!!! E é bom saber que no meio disso tudo também existe a esperança, bem presente nas "Lentes"!!!! Fico feliz por ainda existirem pessoas assim!

Andréia Albuquerque disse...

Parabéns meu caro,
Você escreve divinamente bem.
Eu não poderia ler esta bela obra e deixar de comentar que belo trabalho que você faz, meu amigo!
Continue sempre assim, esse doce de pessoa, apesar de não fazer muita questão de demonstrar sempre!