Uns quinze dias atrás dediquei um tempo para estudar sobre a Coréia do Norte.
Eu sou assim mesmo. Quando um tema me chama atenção, mesmo sem finalidades acadêmicas, procuro livros, vídeos, documentários, reportagens, relatos pessoais, e passo dias, semanas lendo sobre aquilo. Vai entender.
Não tinha olhos nem ouvidos para mais nada, senão destinados a conhecer a realidade do país mais fechado do mundo. A Coréia do Norte ocupa o número um no ranking de perseguição aos Cristãos (segundo dados da Revista Portas Abertas), vive mergulhada num culto idólatra personalista ao ditador Kim Jong Il e sobrevive graças às ajudas humanitárias, em especial da ONU. Nossos colegas de olhos apertados são aproximadamente 20 milhões de pessoas, das quais quase 10% são militares armados até a alma para explodir qualquer ameaça ao sistema pseudocomunista vigente e em fase de construção de armas nucleares.
O Brasil tem aproximadamente 180.000.000 habitantes com um efetivo de 300.000 homens. Por aí se tem idéia da animosidade dos caras.
Mas o que chamou atenção mesmo foi um documentário (clandestino, obviamente, já que o acesso da imprensa é restrito) feito pelo jornalista espanhol John Sistiaga, no qual fica bem clara a violenta alienação praticada pelo governo coreano sobre a população. O povão, a geral, a massa ou como queiram chamar, realmente acredita que não existe melhor estilo de vida fora da Coréia do Norte. Pregado desde o maternal, o ódio aos Estados Unidos é uníssono, desde crianças até anciãos. O ditador Il conseguiu convencer a nação de que no ano de 2011 trará a lua para a Coréia do Norte e todos se orgulham disso.
Os meus amigos pernambucanos diriam “Opraí!!!”
A televisão só exibe o canal estatal com longos desfiles dos batalhões, reportagens alusivas aos gigantescos monumentos em homenagem aos dois grandes ícones da península (o atual ditador e seu falecido pai), funcionando como um poderoso instrumento de convencimento e alimentação intelectual de idéias absurdas.
Por outro lado, meus amigos, na última semana também observei como as coisas se sucedem num outro país, mais conhecido entre seus pares pelo futebol, pernas e glúteos de suas fêmeas do que por seu poder bélico. Nesse Estado, qualquer notícia diferente serve para desviar o foco dos assuntos realmente importantes. Soube que lá será a sede da Copa de 2014. Humpf! As boas novas foram festejadas por um grupo de fanfarrões elitistas e absorvidas como orgulho nacional pelos bobos da corte.
Há uma cidade no litoral do nordeste daquele país – e hospedeira de algumas partidas futebolísticas - em situação de grave crise de saúde: a prefeita constitucional decretou estado de calamidade pública e moratória por 90 dias. Surruraram-me, de igual modo, a extrema habilidade da província para receber água.
Dizem as mais línguas que lá é igual a cabelo escovado: choveu, f....
Essa cidade fica num Estado em que a educação no ano de 2007 ficou como a 24ª melhor do país. Rá! E nessa mesma governança duzentos agentes da Polícia trabalham sem armas. Adrenalina pura.
Mas essa nação tem memória mais curta que lençol em casa mal assombrada. Quando a ferida social está latejando muito, qualquer novidade é suficiente para desviar a atenção dos operários. Natural para um povo convencido diariamente de prioridades distorcidas. Exemplo? Um acidente aéreo envolvendo representantes do mais fino manjar social movimenta a imprensa há mais de quinze dias, pelo menos a cada hora procurando uma explicação plausível para que o problema não se repita. Enquanto isso, na sala da justiça, um acidente fatal entre um ônibus com trinta ‘pobreta’ ganhou vinte segundos no noticiário nacional.
E por que não falar da consciência coletiva cauterizada, dos milhões de miseráveis que sucumbem de fome e sede diuturnamente. Ignoram, ainda, os cidadãos o doloroso fato de uma criança ser assassinada a cada dez horas no país e fazem pilhéria da corrupção política, ou seja, problemas reais com causas conhecidas e soluções relegadas. Porém, pensar nisso é cansativo e é o tipo de maldade incapaz de afetar aqueles com capacidade financeira para voar. Charles de Gaulle, ex-presidente francês, em 1962, disse que tal país não era sério e gerou uma crise diplomática. Parece que a carapuça caiu bem.
Mas o que vale é a Copa de 2014, verdade? Em troca de uma partida entre, sei lá, Azerbaijão e Tunísia, a ordem é esquecer as mazelas fétidas. Uma típica política de pão e circo pós-moderna. Na verdade, só o circo, pois nem o pão está saindo...
Um primo cearense exclamaria: “Eita Roma véaa diferenciada!”
Então. Sob determinação internacional, os chefes nacionais esticaram daqui, sangraram de lá e resolveram encarar o desafio. Os sabichões, sobretudo daquela cidade mencionada ao norte, vão colocar abaixo um estádio, a sede do governo para a construção de outro aparentemente superior com capital estrangeiro, mas com maquete até o momento só em níveis virtuais. É a faca entrando e o povão sorrindo! Ah, Policarpo Quaresma! Como seria bom teus olhos e língua presenciando tal trapalhada.
E a Coréia, hein?! Lá, eles são alienados, mas por falta de opção e por imposição. Aqui, por mera satisfação. Até rimou! Já que o lance é distração e coerência, manda a Copa pra lá, daí nós unimos os dois grandes requisitos para a realização de um evento romanesco desse porte: alienação e imposição. Pelo menos lá não faltarão bombas para detonar os estádios.
Lucena Filho