terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

No dia em que amanheci com o espírito culto

Todos nascemos com uma missão de cuidar ou fazer diferença na vida de alguém, nem que seja numa única oportunidade. Tenho essa inquietante sensação correndo nas veias. Seria algo do tipo a corrente do bem - filme espetacular - e que me conseguiu arrancar uma lágrima solitária.

Então, uma das pessoas pelas quais me sinto responsável de orientar de alguma forma é uma de minhas leitoras. Nome: Kylze Carolyne Prata de Lucena (até hoje eu me pergunto de onde surgiu esse nome!). Idade: 15 anos. Status: irmã caçula, imitadora do irmão e amada por ele. Bom, além de seus talentos naturais e notórios, tais como tocar quase tudo que promova som, rir de piadas sem graça, fazer sustos totalmente previsíveis e dar risadas descontroladas quando NUNCA se pode, a garota está se iniciando na arte das letras para o orgulho do autor deste blog.

Recebi com surpresa um email de Kylze e resolvi publicá-lo sem cortes, edição ou algo do gênero para que meus criteriosos leitores façam o julgamento de per si.

LUCENA FILHO, H. L. de.

No dia em que amanheci com o espírito culto

Uma e vinte e quatro da manhã. A capital potiguar está silenciosa. Não se ouve nem os ruídos dos gatos nas telhas ou um pinheiro velho balançando, apenas o antigo cooler da CPU ventilando a mil por hora a fonte de inspiração dos escritores modernos. A escrivaninha lotada de papéis alheios, canetas novas e contas. Muitas contas. Para fechar o cenário, uma barata graúda explora o cantinho da sala com suas anteninhas capazes de ativar o sistema nervoso de qualquer cristão. Em suma, o espaço físico não colabora com a imaginação de muita gente, exceto Kafka, quando escreveu A Metamorfose. Creio que havia uma baratinha no canto da saleta dele. Enfim...

Nesses últimos dias, um tanto ociosos, andei fuçando, como se diria msnicamente, o orkut da metade da população brasileira. Afinal de contas, não há nada mais divertido (ou fútil, como queiram) para quem ainda tem um mês inteiro de férias. Em todo caso, devo concordar que é possível, sim, tirar proveito dos perfis alheios – provo! - e também compreendo que esta é uma bela desculpa de viciados. Mas, em uma das minhas “visitas” a uma velha amiga, vi uma frase que me saltou aos olhos: 'Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.' Eclesiastes 3:1.

Parafraseando Salomão, há tempo para tudo que fazemos. Há tempo para relaxar, para estressar, para agradecer, para orar, para pensar no vestibular e sua concorrência e estudar (lógico!), para escrever... Há tempo para dormir, para acordar, para rir dos outros e para amadurar, como diria Tia Jô, memorável professora de Biologia do CEFET/RN. Como minha vida está, simplesmente, desorganizada, não sei em qual tempo estou (talvez o de relaxar. Talvez. Não é o que a opinião pública diz. Ou melhor, a opinião dos meus irmãos. Vestiba está logo ali.). No entanto, houve o tempo em que amanheci com o espírito culto. Ou melhor, houve O dia.

Ainda sob o discurso de Salomão, houve o tempo em que eu fui obrigada a escrever. Nada mais natural do que uma aluna de primeiro ano ter que escrever 40 textos (atividade de um dos bimestres, diga-se de passagem) para o professor ler. Se eu fosse esse professor, reduziria para 10! Procurava por todo canto assunto. Nunca acessei tanto o chargeonline.com ou o Google e suas preciosidades para achar o que comentar no bendito Diário de Leitura. Consultei blogs e fui além. Consultei o guru dos blogs, senhor LUCENA FILHO. Porém, ele (e o seu deus da inspiração) não foi muito generoso comigo. A única frase de consolo foi “... Escreva sobre a dificuldade de escrever.”. Saí da consulta um tanto frustrada, mas não deixei a idéia de lado. Um dia, talvez, me servisse.

E assim foi. Depois de concluídos os trabalhos e textos, veio a bonança. Férias, viagens, gordura localizada e ócio. Cria eu estar livre da “fonte de inspiração dos escritores modernos”. O Word e por extensão (.doc, literalmente) os textos sem pé nem cabeça, como diz o nordestino. Mas, digo e repito, houve um dia em que eu amanheci com um espírito culto.

Nesse magnífico dia, queria liberar o pseudônimo sem nome que havia dentro de mim. Sentei na frente do computador, abri o Word e nada. Zero! Nenhuma palavra. Lembrei-me do grande conselho do meu guru, mas... Nada! Por um instante, desejei ser uma pessoa com crises existenciais. Aí sim, talvez eu conseguisse, pelo menos, digitar alguma coisa... Desabafar. Felizmente ou infelizmente, eu não estava em crise. Depois, desejei ser uma emo. Teria a opção de ligar NX0 no máximo, chorar, chorar e depois escrever sobre minhas desilusões. Felizmente ou infelizmente, eu não sou emo. Fiquei pensando de onde brotava todas aquelas palavras poéticas de Cecília Meireles ou a criatividade das crônicas de Moacir Scliar. De algum lugar vinha. Isso eu sabia. Peguei um livro. Li a metade de Cidade do Sol de Khaled Hosseini, mas não estava afim de pesquisar sobre as guerras civis do Oriente Médio, muito menos sobre as divergências étnicas do pashtuns e tadjiques. Desisti! Peguei meu violão, dedilhei umas notas por aqui, outras por ali... Foi a única saída imediata para o “liberar o pseudônimo sem nome que havia dentro de mim”.

Não sei exatamente o porquê daquele dia. Mas, apesar de ter amanhecido com um espírito culto, não produzi nada. Descobri que ter um espírito culto não é suficiente, principalmente se sua bagagem de conhecimento for pobreta-futebol-crube em relação a Cecília Meireles, Moacir Scliar ou até mesmo ao guru dos blogs. Mas, como diz Valnice Milhomens, nenhuma experiência é desnecessária. Essa, pelo menos, me serviu para escrever esse mini-texto sobre nada (ou sobre a dificuldade de escrever, seguindo o sábio conselho. Sábio sim. Já que já falamos sobre Salomão hoje.) e trazer um sono. Agora já são três e treze da manhã. Talvez, eu não durma ou amanheça hoje com um espírito culto. Mas, caso aconteça, te peço, meu Senhor, que venha junto a inspiração. É pedir demais? Espero que não.

Kylze Carolyne Prata de Lucena

14 comentários:

Juliana disse...

'Ixe, ARRASOU !'

Ilma Cândido disse...

E ela não produziu nada...

;)

Kylze disse...

kkkkkkk.. mas, num acredito! Kkkkkkkkk... O guru dos blogs buscando refúgio (da Graça?) em Eclesiastes? A Bíblia é multifuncional.
Valeu, bro. Vc é demais. Um dia eu chego lá! ;)
Beijão.

Barbara Góes disse...

adorei o texto da sua irma.. se ela com 15 anos já arrasa assim, imagine qd estiver mais madura (leia-se velha)..

Espero que ela não queira ser jornalista! Concorrencia forte, pra mim.. hahaha

bjo guru dos blogs.. ^^

Jéssica Etnhe disse...

Querida Kylze... Vc me impressionou, alias diga-se de passagem, me impressiona. Como alguns dos textos de sua autoria que li, nem um deles supera este... Parabéns, vc conseguiu o usar o "Espírito Culto", e fe-lo muito bem!!! Continue assim, logo tera boas postagens para criar um blog... tenho certeza q ira fazer muito sucesso assim como seu Brother!!! Bonita sua atitude Betinho... nada melhor do que um bom insentivo!!! Kylze com certeza comentarei suas postagens tá?!!! Bjão de Tia Keka ;)

Jéssica Ethne disse...

Querida Kylze, Parabéns pela postagem! Vc me impressionou, alias diga-se de passagem, me impressiona sempre... Como alguns dos textos que li de sua autoria nessa fase dos 40 (hehehe), nem um deles supera esse... Vc consegui usar o "Espirito Culto", e fe-lo muito bem... Continue assim, e logo terá outras boas postagens para criar seu blog, assim como o do seu Brother... eu com toda certeza desse mundo comentarei todas... Muito bonita sua atitude Betinho, um insentivo é sempre bom para os jovens escritores!!! Mas uma vez Parabéns Kylzinha!!! Bjão de Tia Keka ;)

Patricia Freire disse...

Nossa, esse artigo está maravilhoso. Só pra lembrar ela é minha amiga (com muito orgulho) kkkk.

Amiga vc arrasou, espero me deleitar em mais artigos da sua autoria!!!

Parabéns!

Aldrina disse...

Sem inspiração é assim ... e quando se inspirar????? beijos e sucessos ... não faça como eu q vou acumulando os textos e não os publico ... ahahaha

Karenyne disse...

Ai, minha irmã, minha irmã. Vc sempre me enchendo de orgulho. Teu texto está muito criativo, inteligente e envolvente. Com alguns defeitinhos, é claro, pra não encher demais tua bola. Recomendo que me confie a concordância e a coesão textual... kkk... Parabéns. E vá estudar mais, nas férias também. Já!

LUCENA FILHO, H. L. de. disse...

Kylze, você tá fazendo sucesso sem escrever sobre um assunto específico. Acho que vou contratar como colaboradora permanente do blog..rss

Kylze disse...

kkk.. Valeu pela dica, Nyne. Vou prestar mais atenção das próximas vezes. Tô enferrujada nessas coisas.. nesse mes de ferias! kkkkkkkkkkkkk

Patrícia Martins disse...

Pois é, Betinho...acho q é coisa de sangue msm. rs Estou concluindo cinco anos de Letras e ainda não amanheci com o espírito culto! rsrs.
Parabéns, garota prodígio!

Sônia Maria Prata de Lucena disse...

Feliz, e sem palavras....e emocionada. Parabéns filhos.

Kylze disse...

Olha, Betinho, o orgulho de mainha. Valeu, véa do meu coracao! ;)